Café com leite e biscoitos

A vovó Elza com a neta Gab, no dia de sua formatura

Por Ana Gabriela Álvares Travassos

► Não pensei que fosse tão difícil… Transformar em palavras tantos sentimentos, momentos, histórias, lembranças. Palavras que você me ensinou através de letrinhas de sopa e de joguinhos quando ainda tinha quatro anos. Lembro-me de nossas brincadeiras quando minha mãe ia para a faculdade e eu passava os dias contigo. Você me levava para a escola e ao voltar tinha sempre palavras de carinho e incentivo diante de minhas grandes “obras”. Até hoje me pergunto o quanto me fez sentir especial, importante e o quanto busquei ser uma pessoa melhor por você!

Amava passar as férias com você e meu avô em Itapoã. Comia caranguejo até me fartar, tomava banho de mar à tardinha e ficava ouvindo histórias que vocês contavam, me sentia segura e protegida. Aprendi a jogar buraco, paciência, comendo umas comidinhas pra lá de especiais que só você sabia fazer, além de compreender o que era ética, regras e solidariedade.

Aliás, eu sempre fui a provadora oficial de suas guloseimas, aprendi a apreciar o ponto do sal e do cozimento, o aroma da moqueca de camarão, da feijoada, do mingau de tapioca, e do arroz de polvo que só você sabia fazer. Se fechar os olhos sinto o cheiro até hoje. De dar água na boca. Sentia em cada garfada o tanto de amor que você colocava para nós. Quanta saudade, vó Elza!

E quantos momentos difíceis passamos juntas, a partida de meu avô, os dias compridos que vieram depois, a minha mudança definitiva para Salvador, para “estudar”. Quantas histórias malucas eu contava todos os dias, casos passados no colégio, para te distrair! Quantas preocupações eu te dei durante a adolescência? E a trabalheira com os vestidos que você fazia questão de desenhar, escolher comigo os tecidos, fazer as medidas, irmos juntas a costureira? Até parece outro século, e foi ontem. E as festas de 15 anos, todo sábado tinha pelo menos uma e você ficava toda orgulhosa de ver a neta arrumada, ensaiando os passos de dança pela sala. O quanto foi mais fácil para minha autoestima, cheia de espinhas e desengonçada, poder contar com essa admiradora.

E durante o 3º ano, quando realmente precisei de você, decidida a fazer vestibular para Medicina e o estudo ocupou meus dias e noites? A melhor hora do dia era parar um pouco os exercícios e tabelas para tomar café com leite e biscoitos que me trazia com um carinho incomparável. O calor desse lanche me conforta o coração até os dias de hoje e essas pequenas coisas fazem parte do que sou.

Por fim, seu apoio quando tive minha filha Marina, gravidez amada ainda que não planejada, quando ainda estava na faculdade. Não conseguiria concretizar meu sonho sem você e acho que nunca tive a oportunidade de te dizer isso. Pude retornar as atividades da faculdade o mais cedo possível, pois tinha certeza que minha filha estava em mãos seguras e amorosas que tão bem cuidaram de mim, 20 anos atrás. E quanto orgulho senti em seus olhos quando me formei, foi uma parte grande de minha alegria naquele dia!

E mesmo hoje, sem você aqui fisicamente, me pergunto em diversas situações: – O que minha vó diria ou faria? Que conselho iria me dar? Quase sempre “sinto” o que devo fazer. Sua presença em minha vida foi fundamental. Espero que eu possa ser uma avó com tanto amor e carinho pelos meus netos, quando vierem. Obrigado pelo seu amor, minha vó!

 

Ana Gabriela Álvares Travassos é médica e neta da vovó Elza

Posts relacionados

12 Comentários

  1. Ana Roberta said:

    Quanto carinho em um só site!!!
    A Fafá cantando…❤️
    O depoimento da Ana Gabriela me emocionou muito!!!
    Cada dia mais satisfeita com o conteúdo!!

  2. Ana Cecília said:

    Tia Lis, excelente iniciativa esse site. Adorei!
    Irmã, quase não consigo passar nem da legenda da foto. Parte dessa história também participei de perto, co-adjuvando esse amor de vocês, que de tanto que era transbordava, enchia e aquecia a minha vida. Foi muita sorte que tive! Amor que até hoje faz parte de mim.
    Durante o início da minha profissão, não sabia o que fazer com as avós….até que fui mãe! Pude então de novo reencontrar esse sentimento tão necessário pra “crescer forte”, dessa vez a mãe e a família que ali se formava. A minha. Sorte de quem tem avós nessa vida! É o que digo sempre!
    Parabéns Irmã, pelas palavras tão bem-ditas! Beijão
    Ciça

  3. Ana Lucia Lavigne said:

    Feliz de quem pode ter uma avó presente na sua vida porque isso faz a diferença para a vida toda! Amor de mãe é bom, mas amor de vó é melhor ainda. Ana Gabriela foi uma privilegiada por ter tido essa avó como companheira e cúmplice. É um amor diferente, sem cobranças; é um amor com açúcar!!!

  4. Maria Manuela said:

    Belas e verdadeiras palavras! Sinto muito não ter mais meus avós por perto, pelo menos fisicamente…

  5. maria alice novaes said:

    Minha mãe sempre conta histórias da minha bisa.
    Até escolhemos um restaurante aqui perto para comer a comida dela (um angu delicioso)
    Eu queria muito ter conhecido ela, e minha mãe disse que quando a gente vai pra missa ela está lá com Papai do Céu

  6. carlos eduardo bordallo said:

    Minha mãe fala sempre pra eu curtir os meus avós.
    Hoje só tenho minha vovó Nena e vovô Abel.
    Mas tenho vários avós de coração que também são muito queridos.
    Colinho de vó não tem melhor

  7. Ana Beatriz Travassos said:

    Nada como termos as referências que só a sabedoria dos avós sabem dar! A tranquilidade de ter vó Elza por perto enquanto criança, poder observá-la fazendo suas coisas sempre tão caprichadas! Lembro do som da maquina de costura, das suas caixinhas de botões, tão coloridos, ir para Salvador era uma alegria maior porque ela estava lá! Adorava desenhar e olhava para os seus quadros e pensava:”nossa, minha vó consegue deixar os lugares e as coisas que pinta ainda mais bonitos! Quero ser assim! ” ela deixava nossas vidas mais coloridas!

*

Topo