Criado com vó

Vovô Raymundo com a metade mais um de seus 10 netinhos

Por Raymundo Dantas

► Sou um daqueles privilegiados que foram “criados com vó”. Sendo minha mãe filha única, meu pai resolveu convidar os sogros para morar com eles. Nasci então entre os dois casais. Filho e neto único por mais de cinco anos, foram meus avós também meus padrinhos de batismo. Mordomia maior não pode haver para uma criança.

Avós aposentados, com dedicação exclusiva para mim, fui candidato natural a criança perdida pelos mimos. Não aconteceu. Fui, pelo contrário, beneficiado com a feliz presença dos avós, que adoçaram a minha vida, contrabalançando o rigor de uma mãe professora, decidida a me educar, tendo-me também como único aluno, em tempo integral.

Minha madrinha e vovó Sussula não dispensava sabedoria e carinho nos meus cuidados. E embora morássemos num casarão de dez cômodos, eu dormia no quarto de meus avós. Meu padrinho e vovô Péricles, homem profundamente religioso, mas também muito alegre e divertido, era minha companhia para os passeios e brincadeiras, enquanto meu pai, que trabalhava nos três turnos, tinha direito a me curtir nos fins de semana.

Fui o centro da vida daqueles quatro durante cinco anos e meio, quando então nasceu a minha primeira irmã, uma criança linda, que veio a ser depois minha afilhada de batismo. Mas apesar da graça da nova habitante do lar, eu já havia consolidado minha posição e tudo continuou a correr muito bem, mesmo depois da chegada de mais um casal de irmãos, todos “criados com vó”. Devo acrescentar ainda a minha babá, que se comportava como mais uma avó, e que até hoje vive conosco, agora já nos seus oitenta e muitos anos, depois de ocupar o papel da vovó nas gerações subsequentes.

Conto essa história toda para informar sobre a longa preparação que recebi para o posterior desempenho da função de avô, o que faço hoje, em condições completamente diversas, atendendo dez netos bem contados.

Os tempos são realmente outros. Contar uma história hoje significa competir com todos os jogos interneticamente disponíveis. Consertar um brinquedinho quebrado importa agora em conhecer eletrônica, o que já nos descarta por antecipação. Ensinar algum truque novo é quase impossível, porque os papeis se inverteram e os netos agora é que nos ensinam como operar o smartphone, quando o que queremos é apenas telefonar. Tempos difíceis para os avós!

Mas, felizmente, o que mais aprendi com os meus avós é ainda o grande trunfo que nos resta para conquistar e usufruir dos prazeres da avosidade: o carinho!

Não há eletrônica que vença um carinho bem feito de avô. Nenhuma engenhoca moderninha se antepõe com sucesso ao afeto que emana de um velhinho carinhoso. É nosso feitiço, nosso charme, nossa arma secreta.

Sorriso nos lábios, chocolate quente, braços abertos e venham os netos! E vêm correndo para o abraço e o beijo do vovô. Vez por outra, permitir uma coisinha que a mamãe proíbe, é um recurso um tanto desleal, mas aprovável. Afinal, a conquista dos netos é um vale-tudo para a felicidade do vovô. Uma palhaçadinha inteligente também ainda faz sucesso. Vovô maluquinho então é um must! Tudo que signifique um pouco de desordem, um naco de indisciplina, um comportamento inusual, faz tremendo sucesso. Nem sempre os pais dos netos gostam desses nossos recursos. Por isso recomendo fazer tudo escondido deles, o que turbina ainda mais nosso sucesso com as crianças. Não se preocupem com os pais: um dia virarão avós e nos darão razão.

E vamos aproveitando, antes que apareçam defensores do politicamente correto na relação avós/netos, esses chatos de galochas. Afinal ainda nem existe um Código de Ética para a Avosidade! Graças a Deus!

Raymundo Dantas é filósofo, escritor e diretor executivo da empresa Faculdade da Felicidade, de Gramado/RS, avô de 9 netos

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