Formigas têm casa com CEP

Vovó Béa com a neta Bia, que aos três anos ensinou à avó o respeito ao coletivo e a novamente brincar com a vida

Por Béa Faleiros

► “Vovó, cuidado com as formigas, elas estão indo pra casinha delas. Você ia gostar que alguém pisasse em você?”

A “dura” foi dada pela Bia, Ana Beatriz, minha neta xarazinha, então aos 3 anos de idade, hoje com 8, e veio como uma porrada, susto e vergonha. Parei na hora, olhei para o chão e só então vi que tinha uma fila dessas criaturinhas que só costumava olhar para matar, pisando ou jogando veneno. Serezinhos abomináveis que invadem a nossa casa, fazem banquete na nossa cozinha, deixam migalhas, sujam, nos irritam. Formitex, é o nome do veneno.

Essa frase tão bobinha na hora veio como um chamado para tantas coisas que eu não enxergava mais, pequeninas como formigas, mas tão grandes para a cegueira da vida. Me marcou e me mudou, no jeito de pisar e no jeito de olhar o resto. Para baixo, para cima, à frente e dentro do que estava perdendo, do simples intenso que transformou meu sentimento com tudo que me cerca.

Acho que nesse momento entendi que, mais do que a sensação diferente e deliciosa de ser a vovó Béa, um espaço novo de enxergar a vida se abriu. Fiquei um tempão com esse pensamento, às vezes achando pieguice de vó, outras em dúvida, e mais outras sem saber direito. Durou um dia para ter certeza de que a formiguinha, metáfora, simbolismo, alerta, era um aviso para baixar a guarda de confusões, angústias e desesperos com o mundo. Um olhar mais longo, sensível e calmo.

Senti uma tristeza infinda quando pensei que nunca havia me importado mais com uma fileira de formiguinhas, uma joaninha que entra pela minha janela, uma vespa que chega no meu abajur, no meu livro, uma lagartixa que me assusta ao subir na parede do lado da minha cama, e pego o chinelo pra espantar ou matar, diante da grandeza e imensidão que somos, e deixamos de ver por um segundo, porque não dá tempo e não tem importância.

Desde que fiquei vovó Béa meu coração desfaleceu, amoleceu, se viu muito mais feliz, desprotegido, com menos medo e com muita, muita esperança no que vem aí. Esperança que jamais perdi, é lema de vida, mas que soprou mais forte

Depois de anos, reaprendi a brincar de casinha, e brincar com a vida. Montar cadeirinhas, sofazinhos e caminhas, criar famílias inteiras ou gente sozinha de bonecas num universo que imitamos e transferimos, que são os nossos, e lá nos vemos, mas que vi com mais virtudes que defeitos.

Vidas de brincadeira onde está representado o mundo com suas diferenças nessa visão tenra de criança, mas astuta. Com menos vícios babacas e muito menos preconceitos, com mais respeito, cuidado com os avessos. Chegam para nos ensinar a abarcar um universo mais corajoso, com menos escudos, mais consciente, preocupado com bem estar de mais gente além de nós.

Coletivo, é a palavra apreendida pela Bia e muitas e inúmeras crianças que passei a prestar mais atenção, valores que chegam cedo em casa, na escola, rua, livros. “Ninguém pode ser feliz se todo mundo não for feliz”, diz a Bia.

“Todo mundo” é muita coisa, mas essa grandeza soltada em frases que muitos tomam como criancices de querer “todos”, me faz sentir a avó mais completa do mundo.

Li e gostei muito da entrevista recente com o Juca Kfouri, como sou fã desse belo espaço aberto pelo portal “avŏsidade” por Jorge e Elisabete. Mas digo ao Juca que “ganhei dele”: a Bia disse pra mim que me amava antes de nascer. Pode acreditar.

 

Béa Faleiros é jornalista e avó de Ana Beatriz, de 8 anos

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2 Comentários

  1. Nair Suzuki said:

    Béa, adorei saber que você tem uma neta de oito anos e que ela te “enquadrou” quando tinha três aninhos. Desde cedo, as crianças dão demonstração de respeito e civilidade para com os bichinhos e animais em geral. E aprendemos muito com elas. Parabéns, Béa, pelo belo texto também!

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