Gerações

Avô campeão

O avô tenente Guilherme Paraense, primeiro ouro olímpico do Brasil, com a avó Belina, tias e a prima, e (abaixo), já coronel, em casa

► Só conheci um dos meus avôs, o paterno, Guilherme Paraense, meu avô campeão.

Para mim, o amoroso Papai Noel de barbas brancas de uma única, porém muita viva lembrança.

Para o resto do mundo, era o tenente Paraense, primeiro medalhista de ouro olímpico do Brasil, nos jogos de Antuérpia, Bélgica, em 1920 (a primeira Olimpíada da era atual), na modalidade tiro.

A casa em que ele morou na Rua Caxambi, bairro do Méier, no Rio, reuniu as minhas impressões mais antigas, o conhecimento mais remoto que tenho de um terreno geográfico e emocional.

Deve ter sido naquela casa térrea – com varanda de mesinha e cadeiras de ferro decorado na frente, quintal de terra e capim, uma árvore grande nos fundos – que aprendi a pensar.

Naquela cozinha descobri café com leite e aqueles cheiros todos das casas de avós. Sentado no degrauzinho da porta da cozinha, olhando para o quintal, devo ter visto as primeiras diligentes formigas andando em fila, a primeira galinha, e devo ter perguntado meus primeiros porquês disso e daquilo.

Tinha minha saudosa avó Belina, minha prima maravilhosa, tios, tias, mas, sobretudo, tinha a presença incontornável do dono da casa, meu avô Guilherme, conhecido no Rio como o coronel Paraense.

Pelo que me recordo, precisei apenas de alguns minutos para concluir sobre essa personalidade inevitável.

Foi num verão muito quente em que o visitamos na Rua Caxambi, 1967 para 68, eu tinha três anos. À noite, logo à frente da varanda, as pessoas reunidas, meu avô sentado me pôs no colo entre risadas.

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Me abraçou e me deu pequenos nacos de caranguejo. Molhou minha boca com cerveja Brahma da antiga garrafa do rótulo vermelho, conversou e fez graça comigo.

É minha solitária lembrança dele. Poucos meses depois, em abril, ele faleceria aos 84 anos.

Quase 50 anos antes ele tinha viajado semiclandestinamente em um navio em direção à primeira aventura olímpica brasileira (não havia nada parecido com um comitê olímpico, meu avô e muitos outros foram recrutados pelo Exército).

Com os demais integrantes da equipe de tiro, dormiu no bar do navio, consta que ficou ao relento num trem de Lisboa a Antuérpia, os equipamentos de competição teriam se perdido na viagem, incluindo pistolas, munição e alvos de treino.

Competiu, ganhou medalha de ouro na disputa individual de pistola rápida e bronze por equipe (a prata ficou com outro brasileiro, Afrânio Costa).

Presenciou muitos dos mais importantes acontecimentos do país na primeira metade do século 20 e participou de alguns.

Contou para o meu pai que certa vez, provavelmente durante o movimento tenentista, nos mesmos anos 20, dissuadiu, na base da conversa, um militar revoltoso que entrou no seu posto pronto para matá-lo. O sujeito se entregou, o Paraense deu-lhe voz de prisão.

Nada disso importava ali no quintal do então subúrbio da cidade sede das Olimpíadas de hoje. Tão rápido e certeiro quanto foi campeão olímpico, naquele instante carinhoso de uma noite abafada de verão carioca ele foi o meu avô para a minha vida inteira.

E eu que não sabia de nada – claro, só bem depois fui entender a grandeza da conquista dele – ganhei um campeão dos avôs.

Para sempre na minha memória e espero que muito presente em inspiração neste Rio cidade olímpica em que ele viveu.

 

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2 Comentários

  1. EMOCIONANTE O TEXTO. Sou tradicional, mas independente de tradicionalismos as pessoas tem que honrar e respeitar pais, avós e bisavós. Em ler lembrei-me do meu Avô Paterno Sizinio Gramosa, dos momentos que passamos juntos, das vezes que passava tardes em sua casa, acho que fui o unico neto a tomar banho de mar com ele. Sem esquecer do meu Avô Materno José Ferreira da Silva, o Dunga, a quem chamava de Papai e minha Avó Materna Alzira que chamava de Mãinha

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