Gerações

Carnaval, carreira e propósito de uma avó

O neto Guilherme, a filha Joyce e a vovó nada convencional Sonia, que samba com dois pés direitos e cuida da boca de gente muito especial

► Minha mãe se chama Sonia Moysés e tem quatro netos, sendo um deles o meu filho, Guilherme. Mas ela não se parece em nada com uma avó no sentido convencional. Por exemplo, ama Carnaval e já desfilou por vários anos no Sambódromo de São Paulo.

Eu me lembro de ter dito ao meu filho, certa vez: “provavelmente, você é o único que está vendo na tevê a avó sambando vestida de pato, na ala dos patos”. É que o enredo que ela escolheu defender naquele ano tinha a ver com sustentabilidade.

E tem um detalhe: devido à confusão para pegar sua fantasia no barracão da escola, só descobriu na hora H que recebeu o par de sapatilhas com um problema, dois pés direitos. Mesmo assim, sambou, feliz!

Ela também ensinou à nossa família que nunca é tarde para começar uma carreira. Digo isso porque tirou o diploma de dentista da gaveta com 40 anos. Quando eu completara 15 anos e já trabalhava como professora de balé – emprego que ela me arrumou.

Começou tratando cáries em crianças carentes. Foi evoluindo ao ponto de se tornar, na época, a maior especialista do Brasil em atendimento odontológico para pacientes especiais. Especialmente crianças com paralisia cerebral, autismo e síndrome de Down.

Autoestima

Trabalho importantíssimo, que combina muito com os dias de hoje, quando os coachs aconselham que os profissionais tenham um propósito e ajudem os outros com seu conhecimento e talento. E quer saber mais?

Minha mãe alcançou muito sucesso profissional, chegando a palestrar em congressos da área na América Latina. Mas ela própria diz que suas maiores vitórias foram devolver a dignidade, a autoestima, o sorriso na boca de pacientes discriminados pela sociedade.

Meu pai também é dentista. Os dois se conheceram na faculdade. Mas ela fez muito mais sucesso do que ele, recebeu mais holofotes dos colegas e do meio acadêmico, mesmo tendo começado a atuar pra valer 17 anos depois. Por quê? Sempre foi mais apaixonada e muito curiosa pela odontologia.

Meu pai é um dentista competente, tendo um jeito especial para lidar com a saúde dentária dos idosos. Mas a energia dela fez a diferença. Costumo dizer nas palestras que faço para (e sobre) mulheres que interromper a carreira por causa da maternidade pode não significar o fim dela. A avó do Guilherme está aí para provar.

 

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Jorge Luiz de Souza

Jornalista, editor do portal avosidade e avô de Mateus, Sofia, Rafael, Natalia, Andrew, Thomas e Cecilia

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