Gerações

Tudo o que há dela em mim

A jornalista Priscilla, orgulhosa de ser considerada parecida com a avó Norma: “a minha avó é a inspiração do tipo de mulher que quero ser”

► Faz uns meses recebi a notícia que minha avó paterna iria fazer uma operação delicada para a retirada de um tumor, que, apesar de benigno, representava risco pela sua avançada idade, 84 anos. E resolvi visitá-la antes da cirurgia.

Ao chegar, fui recebida com um sorriso imenso no rosto e depois de um forte abraço iniciamos uma tarde de maravilhosas descobertas do passado dela. Não que por outras vezes não tivesse tido curiosidade de saber como fora a vida da minha amada avó, mas naquele momento aproveitava cada palavra, registrava cada história, pois poderia ser a última vez que as ouvia.

No meio de nossa conversa ela disse despretensiosamente que eu havia herdado dela o gosto pelo trabalho, enquanto tecia peculiaridades do seu primeiro emprego, orgulhosa da conquista do trabalho numa fábrica de bolsas, depois de como se tornou gerente de laboratório, já no final de sua carreira profissional.

Ela continuou frisando que éramos muito parecidas em diversos aspectos. Confesso que senti um orgulho enorme pelo reconhecimento. Afinal, a minha avó Norma é a inspiração do tipo de mulher que quero ser. Já havíamos sido comparadas por nossa semelhança física e ela sempre gostou de dizer que eu ‘sou ela’ quando mais jovem. Mas foi a primeira vez que ouvi de sua boca o quanto meu caráter é parecido com o dela.

A conversa despertou em mim uma profunda análise do que tinha em comum com minha avó. Nos últimos meses venho lembrando e observando atitudes que, de fato, ela se comportaria exatamente igual. Por exemplo, provavelmente minha avó nem saiba o que é feminismo, mas ela, mãe de quatro filhos, sempre se posicionou diante dos homens sobre o que acredita ser correto. Com isto, a escolha de meus relacionamentos, ou amigos, sempre fora baseada nessa sua opinião do que é aceitável no comportamento masculino.

Minha avó sempre diz uma frase que aprendeu com sua mãe, que como ela mesma enfatiza ‘nunca estudou, mas teve a faculdade da vida’ de que: “devemos gostar de quem gosta da gente”. Conselho que sigo à risca e que diversas vezes me pego falando para as minhas amigas.

Outra característica marcante de minha avó é a opinião forte, que modestamente, também acredito ter herdado dela. Ela conta que quando criança as meninas chamavam para brincar de professora. No entanto, ela não queria ser a aluna, então logo dizia que não queria brincar.

As meninas não gostavam, mas ela conta que não poderia fazer algo apenas porque as outras pessoas queriam que ela fizesse, finalizando a lembrança com a frase: “Mas não sou eu, viu?”. Frase, aliás, muito comum de ser ouvida da minha boca, todas as vezes que me reconheço numa situação parecida, na qual sou empurrada a fazer algo que não quero.

Do jeito dela, seus conselhos sempre foram os melhores para mim. Quando tinha onze anos, minha amiga morreu e naquele momento de tristeza ela me levou para comer um lanche e disse: “Você acha que só gente velha morre?”. E iniciou ali uma conversa sobre a ‘morte’ que eu jamais iria esquecer.

Ou quando contei para ela que ia ser ‘mãe solteira’, esperando sua desaprovação, e ela me disse: “Olha, esta coisa de ser mãe solteira é antiga. Você não será a primeira, nem a última. Então, ‘bora cuidar do teu filho e seguir a vida.” Alguns anos se passaram e eu fui contar como estava feliz com meu novo namorado, ela logo disse: “É o último, é sempre o melhor.”

Ela sempre me aconselhou a ter o meu próprio dinheiro. Porque ela sempre disse que, caso algo desse errado, “eu passava a mão em mim e ia embora”. E isto podia valer para qualquer situação; uma viagem que eu não quisesse mais estar, um casamento que eu não aguentasse mais. Ser independente e ter autonomia sempre foram questões fundamentais, para o que ela dizia: “Eu, ficar dependendo dos outros? Eu não. Tenho vergonha na minha cara.”

E assim, com estas frases, que são muitas e impossíveis de serem todas listadas aqui, vou norteando as decisões na vida e reproduzindo a educação que minha avó contribuiu para que eu tivesse. O traço mais marcante, que enfatizaria, é o poder de decisão. Ela nunca deixou que sua vida fosse comandada por outras pessoas além dela.

Hoje, aos 84 anos, ela não tem nenhum traço de fragilidade por conta da idade, não imagino a minha avó como uma senhorinha frágil e dependente, ela nunca deixou espaço para isto. Mantém a sua força e garra no cotidiano, do mesmo modo que nunca perdeu a coragem de expor a maneira que ela é e pensa.

Temos outros gostos bem particulares, eu e minha avó: samba, carnaval, unha comprida e pintada de vermelho, brincos grandes, combinados com pulseiras variadas, e anéis. E até, por exemplo, uma ‘Figa de Guiné’ e uma ‘Carranca’ que ela utiliza como proteção e que também fazem parte da decoração da sala. Minhas paixões, aliás!

Não consigo imaginar o dia do nosso adeus. Sinto meu peito apertar só de pensar na possibilidade de não ter mais a minha avó ao meu lado como amiga e companheira. Ela sabe que eu a amo muito, mas talvez eu nunca tenha dito o quanto ela é fundamental na minha vida. Me pego pensando como poderia fazer para que ela estivesse sempre ao meu lado. Procuro guardar em mim o que há de melhor nela.

 

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