Gerações

Úrsula Heine: “os netos prolongam a juventude dos avós”

Vovó Úrsula Heine com o painel em que coleciona fotos de todas as fases de crescimento de suas quatro netas e o único neto homem

 ● Entrevista com a vovó Úrsula Heine

 

Conceitos pertinentes e sábios conselhos são marcas reconhecidas desta avó que traz consigo uma história de vida especial, de quem escapou da perseguição aos judeus na Europa e hoje celebra a felicidade que encontrou no Brasil. É o país onde vive há mais de 60 anos, sempre encarando as adversidades com otimismo e bom humor. “Para os avós, os netos são a coisa mais deliciosa que existe na vida e prolongam a juventude dos avós. Eles de alguma forma se veem nos netos”, diz, com alegria.

 

Sim, otimista e bem humorada, Úrsula Heine, hoje com 87 anos, nunca se intimidou com as longas travessias que fez na vida. Nascida na Alemanha, em uma família judaica, ela conviveu com a intolerância desde muito jovem. Sua família, como muitas outras, deixou tudo para trás ao ser tratada como estrangeira em seu próprio País.

A decisão de migrar foi acelerada pelo episódio conhecido como “A Noite dos Cristais”, nome dado aos atos de violência que ocorreram na noite de 9 de novembro de 1938 em diversos locais da Alemanha e da Áustria, então sob o domínio Terceiro Reich, com a destruição de sinagogas, lojas, habitações e de agressões contra as pessoas da comunidade judaica.

Úrsula tinha 10 anos e, na ocasião, seus pais foram presos, mas, graças à ajuda de um oficial compreensivo, completamente diferente da regra do período nazista, a família foi novamente reunida e todos embarcaram para o Brasil.

Chegando ao porto de Santos, o desembarque não foi permitido. O governo Vargas apoiava, naquele momento, a Alemanha de Hitler e não estava receptivo aos judeus. O destino da família foi Montevidéu, no Uruguai, onde Úrsula morou até chegar à idade adulta.

Mas seu destino era o Brasil. Ainda jovem, resolveu visitar um tio que morava na cidade de São Paulo, e então decidiu ficar porque se encantou com a terra e a sua gente. Casou-se com um jovem também imigrante alemão e teve três filhas e cinco netos: Steffany, de 35 anos: Christoffer, de 32; Natália, 28; Mariana, 23 e Yasmin, 19.

Graças ao seu domínio de vários idiomas, trabalhou como secretária em empresas de comércio exterior e, após ficar viúva, administrou a empresa do marido até dois anos atrás, quando enfim se aposentou. São muitas histórias pitorescas para compartilhar, sempre caracterizadas pela fé inabalável na vida, que para ela é uma grande celebração.

 

Acompanhe alguns trechos da entrevista.

 

Discriminação não tá com nada

Quem migra e chega a outro país tem de estar preparado para situações diferentes

“Se você entra em um país novo, tem de aceitar as leis do país novo. às vezes são diferentes do que você está acostumado, mas se você quer se adaptar você tem que se relacionar com o povo. Esse negócio de discriminação racial não está com nada!”

 

O que o Brasil lhe deu

O novo país a encantou pela boa índole do povo, que a recebeu bem

“Me fez feliz… Porque eu fui feliz! Primeiro, eu sou uma pessoa otimista, começa por aí. Outra é por causa de que sempre fui muito bem aceita em todo lugar, nunca sofri alguma violência. Então, de uma certa forma… Sou feliz por causa do povo, porque o povo me aceitou, porque o povo é bom, tem uma boa índole, em geral.”

 

Recomendações para a nova geração

Educação e senso de justiça são a base para criar filhos e netos

“Eu diria primeiro andar direito, estudar, não pegar o caminho fácil… Graças a Deus, nenhuma tem problema com drogas, porque isso acaba com todo mundo. Então, são essas coisas… É a educação no lar. Eu sou o que eu sou hoje pela educação no lar, que meus pais me deram. eu acho que a juventude tem que olhar para os pais e os avós, e a educação que eles vão dar para a criançada. É isto. É isto. Estudar. E olhar para os lados, não só pra você, olhar para o que se passa em volta, e ser justos, hein, ser justos.”

 

Conselhos para avós e netos

Avós precisam cuidar dos netos, e netos, saber que um dia eles também serão avós

“Para os avós, os netos são a coisa mais deliciosa que existe na vida e prolongam a juventude dos avós. Eles de alguma forma se veem nos netos. Então, para os avós, cuidar dos netos, ajudar onde podem. E para os netos, também, porque tem muitos que acham que os avós não servem mais pra nada, que são velhos, e não é bem assim. Então, é para respeitar, porque, um dia, se Deus quiser, eles vão chegar aí.”

 

Cantiga alemã que embalou os netos e netas

Conta a história de um cavaleiro que cai no riacho e faz as crianças rirem

 

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Elisabete Junqueira

Publicitária e jornalista, fundadora e editora do portal avosidade, avó de Mateus, Sofia, Rafael, Natalia, Andrew, Thomas e Cecilia Marie

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