História de avô campeão: camisa 32 do Corinthians

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A emocionante história da camisa 32: Fabrício (com 9 anos) e Luciano (abaixo, à esquerda), neto e avô que se juntaram ao bando de loucos do Timão

Por Denílson Oliveira

● A emocionante homenagem de um neto para o avô corintiano

► Campinas, 31 de julho de 1988. Em campo, Guarani, camisa do interior, e Corinthians se enfrentam pela segunda partida da final do Campeonato Paulista. Para se sagrar campeão, o Bugre (como é conhecido o time do interior paulista) precisava de um empate no tempo normal e na prorrogação.

Final do tempo regulamentar. Com o zero a zero no placar, a equipe verde e branca bota meia mão no caneco. Basta segurar o resultado para faturar o título do Paulistão daquela temporada.

Porém, o sonho do time campineiro de ser campeão paulista vai por água abaixo aos 5 minutos do primeiro tempo da prorrogação. Marcelo, do Corinthians, arranca para o ataque e toca a bola para Wilson Mano.

O volante tenta chutar para o gol, pega mal na bola e acaba fazendo um cruzamento. Viola, que sente câimbras, dá um carrinho, empurra para a rede e garante ao Timão sua 20º taça da competição.

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Hoje, Fabrício frequenta o estádio ao lado do filho e carrega o vô Luciano sempre no coração

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Já em São Paulo, na Água Rasa (bairro espremido entre a Mooca e o Tatuapé), aquele momento marca por toda a vida uma paixão pelo Corinthians. De frente para a TV, o menino Fabrício Vicentim, na época com 9 anos, comemora a conquista de seu time com um abraço em quem o motivou a torcer pelo alvinegro paulistano: seu avô Luciano.

Foi ele quem me ensinou a amar o Corinthians, conta o rapaz, que hoje tem 38 anos, trabalha como analista de sistemas e é conselheiro do time.

Filho de um santista, Fabrício conta que se juntou ao bando de loucos por influência do avô materno e um de seus tios.

Final de 1988

“Meu pai sempre foi fanático pelo Santos. Mas nunca obrigou eu e meus irmãos a torcermos pela mesmo time que o dele. Em compensação, na casa de minha avó, sempre ouvia meu avô e meu tio falando sobre o Corinthians”, diz.

E acrescenta: “No dia em que me deram a camisa do time, me apaixonei de vez. E essa final de 1988 foi marcante para mim. Não só pelo título, mas porque vi ao lado de meu avô.”

À espera do milagre

Seu Luciano tinha um jeito característico de torcer para o Timão. “Ele não era daqueles torcedores cheios de rituais quando o time jogava e nem gostava de frequentar estádios, pois tinha medo da violência nas arquibancadas. Quando um jogo era transmitido, lá estava ele sentado em frente à TV e torcendo quieto, enquanto eu era mais afoito”, conta o neto Fabrício.

Ele se juntou à torcida corinthiana e passou acompanhar os jogos da equipe de perto. “Sempre que dava, ia até a casa dele para vermos juntos uma partida”, relembra.

Um sonho de Fabrício, de Seu Luciano e de toda a nação corinthiana insistia em bater na trave: o título da Copa Libertadores da América.

Em 2012, com o passaporte garantido para a principal competição da América do Sul, a espera parecia próxima de seu fim e Fabrício profetizava a seu avô que naquele ano eles iriam ver o Corinthians levantar a taça de campeão continental.

Ele duvidava e dizia que todo ano era a mesma coisa e não ganhávamos nada. Mesmo assim e eu insistia: agora vai!

E a cada partida, a profecia do neto ia se cumprindo. Melhor time da primeira fase da competição. Comandada por Tite, despachou o Emelec, do Equador, nas oitavas de final. E se classificou para enfrentar o Vasco na próxima etapa. Empate sem gols no Rio de Janeiro. O Corinthians precisava de uma vitória simples no Pacaembu para avançar.

Sonho e tristeza

Com o ingresso garantido, eis que chega o dia 23 de maio de 2012. Data do jogo. Mas, o destino quis que Fabrício não fosse ao estádio dessa vez. Seu Luciano, com a saúde debilitada pela idade, e internado após enfrentar um câncer, não resiste e morre.

“Vendi o ingresso para um amigo e só consegui ver o segundo tempo da partida pela TV, dentro do hospital.”

Em campo, o sofrimento corintiano só terminou após os 43 minutos do segundo tempo. Quando Paulinho coloca a bola no fundo. “Foi um misto de tristeza pela morte de meu avô e alegria pela vitória que ele também teria comemorado comigo”, lembra.

Homenagem de neto corintiano

A vida seguiu em frente. E competição também. Como forma de se lembrar do avô, Fabrício resolveu então fazer uma homenagem. “Passei a ir aos estádios com uma camisa do Corinthians escrita vô Luciano nas costas e o número 32, em referência ao ano em que ele nasceu.

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O número da camisa é o ano de nascimento do vô Luciano

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Pé quente, ele viu seu time despachar o Santos de seu pai na semifinal. Agora só faltava enfrentar outro gigante das Américas: o Boca Juniors e seu bando de torcedores tão loucos quanto os loucos que acompanham o Corinthians.

De alguma forma, [com a camisa] conversava com ele e falava: vô, vamos juntos até a final desse campeonato.

Depois de um empate em 1 a 1 no estádio La Bombonera, casa do rival argentino, a massa alvinegra lotou o Pacaembu na noite de 4 de julho de 2012. Fabrício, claro, estava lá com Seu Luciano no coração e em seu pensamento. Depois de uma partida emocionante e 2 a 0 no placar, uma nação de milhões de torcedores finalmente soltava o grito de campeão da Libertadores.

Torcida de gerações  

“Naquela noite eu disse que não usaria mais a camisa e que a guardaria como uma lembrança daquela conquista e também de meu avô”, conta. Porém, a promessa foi quebrada dois anos depois.

 

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Em maio de 2014, quando o Corinthians pisou pela primeira vez no gramado do Itaquerão, Fabrício realizou outro sonho.

“Depois da morte de meu avô me sentia frustrado por nunca ter ido a um estádio com ele. Botei a camisa e fui para o campo. De certa maneira, foi como estar com ele na casa do Corinthians pela primeira vez, pois sentia a presença dele comigo”.

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Denílson Oliveira é jornalista e colaborador assíduo do portal avŏsidade

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