Meu avô não usa chinelos

Natália expressa a admiração pelos 91 anos do avô, que dedicou sua vida inteira à causa do ensino

Por Natália Pesciotta

► Quando eu comecei a entender as coisas do mundo, logo percebi que meu avô não era igual aos outros. Que não eram todos os avôs que costumavam estar ocupados com máquina de escrever no escritório, que tinham agenda cheia de reuniões, recebiam homenagens e se entretinham em livros acadêmicos e grupos de estudos. A gente saía com ele por Lorena, a cidade paulista onde vivia, e era parado a cada esquina. “Ô, seu professor”, cumprimentavam várias gerações de alunos que haviam passado pelas suas aulas de sociologia na faculdade local ou pelo colégio que ele dirigiu por décadas na cidade, depois de ser inspetor de ensino na região do Vale do Paraíba toda.

Já sem essas tarefas, ele teimou em desafiar a aposentadoria “compulsória”, como chamou. Coordenou grupo de estudos sobre o rio Paraíba, foi secretário da Cultura da cidade, assinou artigos em jornais, continuou envolvido na política (faceta que o levou até à prisão, durante a ditadura), fundou a academia de letras do município. Com ele, aprendi que a sede de conhecimento e de participar ativamente da sociedade não tem prazo de validade estabelecido.

Como moro na capital, os ocasionais almoços de domingo sempre foram nosso encontro mais constante. Nesses eventos, ele é a grande atração do dia em casa. Meus pais preparam prato principal e algum doce melado, como ele gosta. “A sobremesa sempre cabe no estômago, pois fica em outro compartimento”, ele diz. Um sábio. Logo depois da frase já sabíamos que ia ligar para a Cometa e se apressar para o próximo ônibus de volta pra casa. Fatalmente tinha um compromisso na segunda cedo. Só neste ano, aos 91 de idade, atendeu aos apelos da família para viver em São Paulo.

Nunca – nunquinha mesmo – vi meu avô vestir um chinelo. Durante meus 27 anos ele sempre apareceu de traje social, sapato e calça. No máximo, uma bermuda com cinto. Mas, apesar da formalidade, no fundo é um fanfarrão. Ensina não só a respeitar a sabedoria de quem viveu muito mais tempo como também a prestar atenção no humor sutil dos mais velhos.

Seu Nelson era presidente da Câmara Municipal de Lorena quando, certa vez, colocou uma comitiva de vereadores de São Paulo na sua Kombi para apresentar a cidade. Era impossível disfarçar a buraqueira e má condição das ruas com o balanço do automóvel. Ele tentou: “A Kombi é um carro duro, não?”. A história antiga é um clássico na família, assim como a vez em que ele cortou pela metade o enfadonho discurso de um paraninfo numa formatura em que era o mestre de cerimônias: “Pode me dar o papel que o resto leio em casa, sim?”

Em 2012, seu professor foi o candidato a vereador mais velho de Lorena. Sua campanha política foi baseada nos 90 anos de vida pública íntegra e totalmente voltada para a causa que mais acreditou, o ensino. Com 358 votos, não foi eleito, mas sua história de dedicação e honestidade é a grande herança que já recebi dele, em vida.

Para sua campanha, feita sem recursos, meu vô aprendeu a usar o Facebook. Eu gostava de acompanhar seus artigos divertidos sobre a vida. Num deles, dizia que a grande vantagem de envelhecer é poder usar a velhice como desculpa para cometer indelicadezas, como sair no meio de um evento longo ou dar uma resposta sincera. A cara do seu Nelson. Um dia, percebi que sua página não existia mais. “Por que desistiu do Facebook, vô?” Ele tinha descoberto até os problemas modernos da vida conectada: “É muito difícil. As moças, você sabe, elas são muito ciumentas, as moças”.

 

Leia também: No canal vŏ escreve, o texto escrito pelo avô da autora deste texto

 

Natália Pesciotta é jornalista paulistana e a sexta neta de Nelson Pesciotta

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4 Comentários

  1. carlos eduardo bordallo said:

    Essa admiração é massa quando a gente convive muito com o avô. O meu começou a se aproximar dos netos agora, mas acredito que iremos curti-lo bastante ainda.

  2. Edna Pesciotta said:

    Nat, seu texto retrata exatamente como é seu avô, pessoa querida e inteligente. É um prazer conversar com ele.
    Parabens a vc, pelo lindo artigo. Bjs.

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