Tsé, de onde surgiu uma história de amor à vida

Tsé
Segundo o autor, quando era criança, seu programa favorito não era circo ou parque, mas ir à casa dos avós ouvir histórias reais

Por Fábio Kow

Cineasta homenageia a avó que escapou da perseguição dos nazistas

Quando eu era criança, meu programa favorito não era ir ao circo ou a um parque. Eu ficava sempre ansioso mesmo pelo próximo dia que eu iria para a casa dos meus avós. A casa deles, no Bom Retiro, era o meu porto seguro, de paz, talvez mais do que isso, era um lugar de inspiração para mim. Tsé

Todas as terças eu saía da escola e seguia correndo para lá, onde eu ficava sentado de frente para a mesa da cozinha, ao lado do fogão, onde minha avó, a Tsé, cozinhava as minhas comidas favoritas. Claro, com todo aquele exagero típico das avós judias, sabe?

Tsé

Vovó Tsé, vovô Zeide e seis netos (o autor é o menino que está com um bebê no colo)

Enquanto ela cozinhava, e eu lembro dela sempre com o avental amarrado na cintura, e com a tradicional rádio Eldorado AM ao fundo. Ela me contava suas historias e me mostrava um mundo bem distante e diferente do que eu vivia e conhecia. Depois do almoço era a hora de sentar no sofá ao lado do meu avô, o Zeide, para assistir a famosa sessão da tarde na TV, onde passava os clássicos musicais dos anos 40, que ele e eu tanto gostávamos.

Algum tempo depois, e durante toda a minha vida, eu quis registrar aquelas histórias ou talvez tentar congelar aquela sensação que eu sentia ao lado deles.

O Zeide era o mais animado, sempre empolgado, muito amoroso e gentil. Com uma voz que a gente escutava de longe, carregada com aquele sotaque de quem atravessou o mundo mesmo para chegar aqui. Naquela época, a Tsé era a mais doce, com a voz mais suave e sempre com uma história na ponta da língua.

Histórias iam evoluindo Tsé

Conheci ela apenas como minha avó (o que não era pouco para mim), no início ela me contava histórias para eu comer, para eu me acalmar e até para eu dormir. Histórias incríveis, mas quase sempre ligadas às tragédias que aconteciam com crianças que deixavam comida no prato. A criatividade dela me impressionava.

Conforme eu ia crescendo, as histórias iam evoluindo. O que parecia ficção, começou a virar realidade, e as histórias de sua vida começaram a me acompanhar. Histórias de uma vida bem distante da minha e tão perto ao mesmo tempo. No início, a de uma menina que vivia feliz com a família em uma pequena cidade na Polônia.

[clique em uma das setas nas laterais da foto para fazer o carrossel girar]

Aos poucos os conflitos foram surgindo e comecei a conhecer alguém que tinha passado por uma guerra de verdade, que tinha perdido toda a família e ficado sozinha aos 14 anos, apenas por ser judia.

Como eu poderia não me emocionar ao descobrir que a minha doce avó era essa menina? Uma verdadeira heroína, guerreira, sobrevivente, refugiada e imigrante.

Aquelas histórias não embalaram apenas a minha infância, eles seguem comigo. Mas eu nunca saí triste da casa dela. Ela me fazia valorizar a vida e as pequenas alegrias do dia a dia.

Missão: contar esta

Aos treze anos, no meu bar mitzvah, ganhei a minha primeira câmera de vídeo. Eu podia gravar movimentos, era incrível! Nesse momento os meus avós viraram os meus musos. Afinal, eram os únicos que não reclamavam quando eu filmava e também, não sei dizer hoje se era algo consciente ou não, mas eu tinha muito medo de perdê-los. Talvez eu quisesse registrá-los para tentar eternizar aquela sensação que eu sentia ao lado deles.

Ao me tornar adulto, a Tsé e suas histórias continuavam sempre comigo. Eu comecei a entender e a me preocupar que a história que eu sempre tinha escutado dela poderia acabar na minha geração. De alguma maneira entendi que recebi um presente e uma missão, contar esta historia e garantir a continuidade dela para as próximas gerações.

Tsé

Juntei o meu gosto pelo cinema, o fascínio e amor pelos meus avós e o repúdio às guerras e aos preconceitos, para documentar esta saga. A história que eu conto no documentário ‘Tsé’, não é apenas uma merecida homenagem, mas também um registro contra a intolerância humana, o desafio da constante reinvenção e um exemplo de amor à vida.

A minha avó foi a minha grande contadora de histórias, meu porto seguro, porto de paz, carinho e inspiração. Com ela aprendi a arte e a importância de resgatar memorias. E assim, pude registrar um pouco de sua trajetória, que se entrelaça tanto com a minha, que me emociona e me ajuda a saber quem eu sou. Sem perceber, fui ensaiando e registrando sua historia por quase 40 anos.

A sensação que ficou, não é de tristeza, mas de muitas saudades, gratidão e um eterno aprendizado.

Tsé

Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então.

Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então.

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Fábio Kow é cineasta e administrador de empresas; diretor do documentário Tsé, lançado em 2018; e neto de Tsecha Szpigel

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