Alegria em dose dupla

Dose
No colo da mãe, os gêmeos Felipe e Gabriel, que nasceram no meio da pandemia e deixaram a vovó, numa espera interminável

Por Isabel Dias de Aguiar

Ter gêmeos é comum nessa família, mas numa pandemia, não

O novo coronavírus Sars-Cov-2, causador da ameaçadora Covid-19, teve exatos 102 anos, desde a gripe espanhola, para atacar. Mas foi escolher justo a minha hora de ser avó. Dose.

Não que não tivesse tido essa fantástica experiência antes. A brilhante, criativa, bem-humorada e maravilhosa Vitória nasceu em 2017 e a linda, fofinha e doce Joana em 2019.

Claro que parte de algum desses adjetivos são por conta do deslumbramento de quem teve de esperar pouco mais de 70 anos para sentir a emoção de conviver com as filhas das minhas filhas.

Mas os gêmeos Felipe e Gabriel, filhos da Flávia, chegaram em meio a essa pandemia, motivo de apreensão e ansiedade. Pior, longe de todos da família em uma maternidade que só admitia a presença do pai, o Frederico, como exige o atual protocolo.

O vazio causado pela distância dos netinhos só veio se somar à desolação de não contar com a companhia da Vitória, que antes da quarentena tinha o privilégio de ocasionalmente buscá-la na escola e trazê-la para minha casa.

Dose

Brincar, conversar, contar e ouvir suas histórias eram atividades obrigatórias. Sempre precedida, claro, de muita expectativa. Tudo era planejado com a participação do vovô.

Não podia preparar jantar, que era servido na escola e não se podia correr o risco de repetir a refeição, uma vez que a menina já estava suficientemente fofinha. Apenas um lanchinho frugal.

A lembrança desses momentos prazerosos enche e ao mesmo tempo parte o coração. Distanciamento ainda sem qualquer previsão de acabar. A desolação não é só nossa. Vitória que, segundo relatos dos pais, vira e mexe quer visitar os avós.

Nem mesmo dá para conversar pelo Zoom (vídeo conferência) porque a Vitória começa a chorar de saudades.

Acabou-se o que era doce Dose

Decepção ainda maior foi em relação aos planos que tínhamos feito para a Joana. Tudo parecia perfeito. Com a volta da mãe ao trabalho, após os seis meses de licença maternidade, minha segunda neta ficaria sob minha supervisão durante o dia, com a ajuda de uma babá.

Uma alegria! Pena que foram por poucos meses. Com o início da quarentena, acabou-se o que era doce.

A ameaça desse vírus e a condição de risco imposta à população idosa, não havia alternativa. Mesmo porque os escritórios se esvaziaram. Pais, mães, tios, enfim, boa parte da força de trabalho recolheu-se ao home office.

E o confinamento dos filhos, um desafio adicional. Um misto de alegria e decepção foi o sentimento proporcionado com a chegada de Gabriel e Felipe. Nascimento duplo não chega a ser novidade na família, uma vez que as mães da Vitória e da Joana também são gêmeas – respectivamente a Fernanda e a Beatriz.

Mas tudo fica diferente em meio a uma pandemia. Até quando? Vovó não vê a hora de poder abraçar, apertar, morder, conversar, ninar, cantar para esses bebês tão fofinhos.

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então.

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então.

E mais… Dose

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Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então.

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então.

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Isabel Dias de Aguiar é jornalista, avó de Vitória, Joana, Gabriel e Felipe

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