Bem-vindo, vírus

Bem-vindo
A família com máscara, menos o bebê: Felipe no colo do vovô Oscar, Gabriel no colo da priminha Olivia e Nicole no colo da vovó Nair

Por Nair Keiko Suzuki

Finalmente, poder reencontrar os netos, abraçá-los e beijá-los

Quem quer ser infectado pelo Covid-19? Eeeeuuuu, respondi, erguendo os braços. Dois meses depois de ficar em isolamento forçado, saindo de casa só para ir à farmácia e supermercado, meu marido pegou o corona vírus. Teve sintomas leves, de resfriado comum nessa época do ano. Vindo

Certa de que seria inevitável ser contaminada, fiz dois exames quando tive febre e senti uma dorzinha de cabeça. Cheguei a tomar antibiótico preventivamente. Mas os testes deram negativo. Parentes e amigos não acreditavam nesse resultado e comentavam que havia algo errado.

Até que uma febre mais alta, de 38,6 graus, me levou a fazer os exames novamente, inclusive a tomografia do pulmão, que não tinha feito.  Deu pneumonia viral inicial e a pesquisa por método molecular deu positivo.

Aleluia! Nunca um vírus foi tão bem-recebido. Finalmente ia poder dizer a todos que eu tinha pegado o corona vírus. E, o que era mais importante, poder reencontrar os netos, abraçá-los e beijá-los. De fato, o reencontro foi gratificante. É como se tivéssemos voltado de uma longa viagem nada prazerosa.

Bem-vindo

Vovó Nair com o neto caçula Felipe, e Olivia e Nicole, de máscara

Com receio de não ser reconhecida pelo neto caçula, de dois anos incompletos. Da parte deles, no entanto, o reencontro também foi emocionante. Queriam vovó e vovô para compartilhar suas brincadeiras e mostrar o quanto cresceram e se desenvolveram. Fomos alvos de inveja de muita gente que não suportava mais o isolamento forçado.

A pandemia do corona vírus pegou o mundo inteiro de surpresa. A cada ameaça do surto, tudo o que havia sido programado com muita antecedência foi sendo cancelado, um por um. Desde o início do ano, quando o Covid-19 foi detectado na cidade chinesa de Wuhan, quantas viagens foram desmarcadas?

Paranoia total vindo

Quantos casamentos, batizados, quantas festas de aniversário foram canceladas? Quantas pessoas tiveram de ficar de quarentena para não espalhar o vírus?

Quantos morreram, quantos se recuperaram? Devia-se permitir que crianças se contaminassem, criando anticorpos?  São variações sobre o mesmo tema, debatidas incessantemente em todo o planeta.  Paranoia total.

Uma coisa é certa: 2020 será para nós o ano inesquecível, diante da ameaça do Covid-19 de nos infectar, a nós vovós, considerados grupo de risco. Pela idade, por termos outros tipos de doença.

Para a geração dos nossos netos, a pandemia ficará marcada como um acontecimento que fez parar o mundo. Aquele ano em que não se podia sair de casa, e se saísse, tinha de colocar máscara. Ano que não tinha aula nas escolas, o aprendizado era feito à distância, por computador.

Não se podia sair além do portão para brincar com os amiguinhos, o playground do prédio ficava fechado, não se podia visitar vovô e vovó, não se podia ir à praia, até a pracinha estava interditada.

Para quem estava acostumado a paparicar os netos a qualquer hora, levando e buscando na porta das escolas, indo passear no shopping, tomar um sorvete, foi um choque. Como? Não poder vê-los? E os vovôs e vovós de primeira viagem, que nem podiam ir à maternidade para conhecer o primeiro neto?

Em questão de semanas, o mundo todo ficou de pernas para o ar, cumprindo um isolamento forçado, fazendo com que se acompanhasse pela mídia os estragos que o temível vírus provocava em cada canto do planeta.

Cada um enfrentou a quarentena como pôde. Fazendo exercícios em casa, cuidando da casa e das plantas, mantendo contato com amigos e familiares pelas redes sociais, ouvindo música, assistindo filmes e seriados, lendo muito.

Algoritmos, uma revolução vindo

Não por acaso, escolhi livros para ler e reler, como “O Livro dos Abraços”, de Eduardo Galeano, “Os 100 melhores contos de Humor da Literatura Universal”, organizado por Flávio Moreira da Costa, e para manter um otimismo em relação ao futuro, li num fôlego só “21 lições para o Século XXI”, de Yuval Noah Harari.

Depois que a pandemia passar, o mundo não será o mesmo, é o que mais se ouvia dizer. As pessoas não se comportarão como antes, vão reavaliar sua vida, desprezar tudo o que não têm importância e dar muito mais valor às pequenas coisas, à amizade, à família.

Sem dúvida, essa geração dos nossos netos viverá com atenção voltada para detalhes que gerações anteriores não percebiam. Mesmo sem a pandemia, já estavam envolvidos com conceitos diferentes em linguagens próprios de uma nova era.

Algoritmos, inteligência artificial, tecnologia da informação, biotecnologia, comunidade global, são apenas alguns termos que remetem a uma profunda revolução cultural que os cerca desde que nasceram, há poucos anos.

Como avós, viveremos muito pouco dessas experiências. Mas estamos conscientes, desde já, que nossos netos terão um enorme desafio pela frente, devido à concorrência dos colegas de escola e do trabalho.

Mas sabemos também que eles estarão preparados, uma vez que já nasceram com um tablete no colo, um celular que serve para fechar todas as operações, uma tecnologia que inova e avança cada vez mais.

Aliada a isso tudo, até a pandemia que ora estamos enfrentando com muito medo vai ajudá-los a buscar uma qualidade de vida compatível com suas necessidades futuras.

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. 

Então. Pois. Então. Pois. Vindo.

E mais… vindo

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Então. Pois. Então. Pois. Então.

Então. Pois. Então. Pois. Então. 

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Nair Keiko Suzuki é jornalista, avó de Olivia, Nicole, Gabriel e Felipe

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