Gerações

Fazendo ciência…

Outra foto com todos os netos, que moram espalhados pelo Brasil e até fora dele, só no próximo aniversário do vovô, no final do ano

► Depois que a Bete e o Jorge inventaram essa tal de avosidade, a coisa tem crescido e tomado rumos de conhecimento sério, com cara de que se tornará, em breve, uma nova ciência. São tantas coisas que temos aprendido neste portal, que já me sinto estudando uma nova disciplina. E, como gosto de participar, resolvi dar a minha contribuição, inscrevendo-me como um dos pioneiros da nova ciência.

Para começar, diria que a avosidade tem conteúdos quantitativos. Aí se estuda o grupo de indivíduos (chamemos de netos) que possuem, cooperativamente, um mesmo casal de avós. Esse grupo pode ter poucos ou muitos indivíduos, o que traz para os avós maior ou menor volume de trabalho. Eu e minha mulher, por exemplo, somos operosos súditos de nove netos, o que, pelo amplo espectro, nos caracteriza como microssistema avosídico.

O avô AC (amplo espectro) é facilmente identificado pela insistência em saber quantos netos têm os amigos, para depois, orgulhosamente informar a quantidade dos seus, e poder se sentir poderoso, como campeão avosídico. Trata-se, como explicará qualquer bom avosiatra, de um retorno senil da velha disputa, do tempo de criança, pelo tamanho do bilau.

Mas ao lado da Quantidade, é preciso também pensar na Intensidade. Aí o estudo abrangerá questões como dispersão geográfica, frequência e duração dos contatos, aspectos comportamentais de cada neto, etc. No nosso caso, apesar de muitos netos, nenhum deles reside a menos de 250 quilômetros da cidade onde moramos. Dessa forma somos avós de amplo espectro, mas de baixa intensidade, dada a dispersão geográfica.

Com esta outra variável, já podemos deduzir consequências de grande importância. Por exemplo : avós do tipo BI (baixa intensidade) correm riscos fundamentais com a saúde física. Com efeito, por falta de netos próximos e, consequentemente, sem terem que se abaixar, sentar no chão, subir em mesas, ou mesmo em árvores, etc., sofrerão certamente de reumatismo, hipertensão, lerdeza e outros males físicos. Do ponto de vista emocional, também estarão expostos a depressão, banzo, Alzheimer e outras fatalidades da carência afetiva.

Com a eventual visita dos netos, o avô BI corre outros riscos, como acidentes pessoais causados por incapacidade física para exercícios violentos. Além disso, ocorrem também acidentes emocionais, como a excitação descontrolada, que o leva a excessos para agradar o neto recém-chegado, tornando-se, às vezes, ridículo, o que prejudica a sua imagem de dignidade. Na minha família, por exemplo, todos se lembram de um vovô que, diante da chegada do netinho de três anos, fez tantos seremeleques, trejeitos e gracinhas sonoras que o guri, estarrecido, exclamou, depois de algum tempo – Vovô é um “bêta”!

Muito poderíamos falar sobre o conjunto AC-BI, que faz a “festa” dos avosiatras, mas é mister que avancemos nos estudos, falando de outro aspecto importante da nossa ciência, que é a Adequabilidade. Como tal, entendemos a maior ou menor capacidade de correta comunicação com cada neto, levando em conta sua idade, seus interesses, estágio intelectual, necessidades pessoais, etc. Muito frequente é a incapacidade de os avós acompanharem o crescimento das crianças, de modo que as percebem estagnadas numa determinada idade, até porque, muitas vezes, esse é o seu desejo inconsciente.

É a “Síndrome de Peter Pan”, muito conhecida dos avosiatras. Eu particularmente fui, certa vez, chamado à atenção, por minha mulher. Disse-me ela: “Atenção, meu velho, sua Xuxuquinha já fez 15 anos. Está na hora de falar com ela de modo natural, sem usar o dialeto glu-glu, nem conversar sobre fadas ou Papai Noel. Ainda ontem ela veio falar comigo preocupada, achando que você está piorando do Alzheimer”. Problemas de um avô tipo IN, de Inadequado. (Talvez melhor seja mudar para OUT, o que vocês acham?).

Muito mais estudo é necessário, entretanto, para a construção dessa ciência da Avosidade. Convoco os leitores a contribuir. Vou me afastar um pouco da pesquisa, porque entrarei em fase de preparação física e mental para um baita reencontro avosídico. No final do ano, todos os meus netos (são 9, lembra ?) virão juntos, trazendo os pais, para comemorar o meu aniversário. Vem gente da Bahia, Sergipe, São Paulo, Rio Grande do Sul e até de Angola. Vai ser um festão. Não posso fazer feio, como convém a um fundador de Ciência. Torçam por mim ! Não, não. Rezem pela minha sobrevivência. Amém!

 

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