Gerações

Luiza Helena Trajano: “Ser avó é meu melhor papel”

Vovó Luiza Helena com os netos Rafaela, Pedro, Antoine e Enrico – ela tem ainda a caçulinha Maya

● Entrevista com a empresária Luiza Helena Trajano

 

Uma das mulheres mais influentes do País, a empresária a frente das quase mil lojas da rede Magazine Luiza não tem dúvida de qual é sua melhor faceta. No que depender dela, seus netos aprenderão a assumir o protagonismo para melhorar o Brasil. Otimismo? “Se a gente fizer nossa parte, nossos netos terão um bom País para viver”.

 

Paulista de Franca, Luiza Helena Trajano comanda uma das maiores redes de varejo do País, o Magazine Luiza, também faz palestras, participa ativamente de encontros empresariais e… prioriza os cinco netos: “Eles são minha primeira opção!”

Desde que o primeiro nasceu, oito anos atrás, ela conheceu a sensação “inexplicável” de ser avó, que consegue combinar harmonicamente com suas atividades. “Tenho uma vida intensa e tomo cuidado para não projetar neles todas minhas expectativas”, explica.

Ela também quer que eles conheçam seu exemplo de protagonismo: “O que mais tento passar como avó são lições de vida, são atitudes. Gostaria que entendessem o papel que eu tive com o Brasil, com as pessoas, de líder cidadã, do resgate com o Brasil”.

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Com o exemplo, Luiza espera que a nova geração dos Trajanos saiba que deve assumir para si o papel de melhorar o País e o mundo. “Nem que seja o seu quarteirão, todo mundo pode melhorar alguma coisa”, acredita.

Um dia, Luiza reclamou com o neto mais velho que perdeu um jogo para o mais novo, de lavada. Levou um susto ao ouvir, como resposta, o seu próprio conselho: “Treine, treine e não desista”. Não é que o menino estava repetindo uma frase sua? “A gente marca a vida deles sem perceber que está marcando.”

 

Assista os principais trechos da entrevista com a empresária Luiza Helena Trajano:

 

A sensação de ser avó

Para Luiza Helena, avosidade é um sentimento que brota: “Gosto de tudo que faço, mas digo que ser avó é o meu melhor papel”

“Eu nem falo pras minhas amigas enquanto as filhas não estão grávidas, porque é uma sensação tão boa, tão diferente. E eu gosto tanto das minhas amigas que não quero que elas sintam se não forem viver. Mas na hora que a primeira filha fica grávida, elas falam que lembram de mim, porque eu falo pra elas: ‘Nada explica a sensação de ser avó’. Eu falo que eu exerço várias funções na vida, mas a melhor é ade ser avó. É muito difícil até de explicar, não tem muita explicação, é um sentimento que brota. Com a minha cunhada agora veio me ver e está fazendo agora nove meses que eu estava falando pra ela, desde que a filha ficou grávida, falou agora pra mim: ‘Você tinha toda razão! Não tem jeito de explicar. É uma coisa que brota dentro’. Não sei se é a idade da gente, a maturidade, ou é a não responsabilidade de educar, eu não sei explicar, mas eu posso te dizer que é o melhor papel. Eu gosto de tudo o que eu faço na vida, eu faço com muito coração, eu sou muito de propósitos, não faço por causa do dinheiro, o dinheiro, lógico, é consequência. Mas avó é uma coisa que não tem explicação, é uma coisa muito boa.”

 

Esperar muito faz cobrar muito

Luiza dá a dica para uma relação saudável: “O amor é tão grande que você tem que se cuidar um pouco para não projetar tudo neles, não viver em função deles”

“Não sei se mudou tanto minha vida, porque me cuido muito para não ficar na expectativa de viver a vida em função. O que muda é que eu paro de fazer qualquer coisa que eu possa estar programada de fazer se eles precisarem ficar comigo, se precisar buscar na escola, se precisar às 7 horas da manhã eu vou pôr eles na perua… Eles são muito primeira opção. Mas não é por responsabilidade, é por alegria de estar junto, por motivação de estar junto. Mas não sei se minha vida mudou muito, até porque tenho uma vida muito intensa e eu tomo muito cuidado para não projetar em cima das pessoas, como foi de filhos. Porque quando você espera muito, você acaba cobrando muito. Eu cuido muito pra não projetar. Eu falo que é tão perigoso, o amor é tão grande que você tem que se cuidar um pouco.”

 

O papel dos avós com os netos

O que os avós deixam para os netos são as lições de vida, são atitudes, porque a responsabilidade de educar é dos pais

“O que o avô mais pode deixar e que eu vejo que deixaram com as minhas filhas e meus filhos são lições de vida, são atitudes, e se ele deixa fazer tudo, tudo é permitido, ele não vai passar o que ele vive. Eu não acho que ele tem responsabilidade de educar eu acho que ele tem de estar junto pra mostrar o que ele acredita até porque a idade ajuda muito. Mas eu digo que ele não tem a responsabilidade de ter que estar assumindo todo o destino de uma criança, o que vai e o que não vai fazer. Mas eu vejo o avô como uma coisa muito legal como bom exemplo do que tinha de ser dado.”

 

Ser protagonista da própria vida

“Para os meus netos, sou um exemplo mais consolidado do que para meus filhos. Queria que eles tivessem o exemplo de que não é pra ver a banda passar, mas tocar na banda”.

“Eu até tento deixar, por exemplo, alguma coisinha simples, de poder usar meu iPhone, essas coisas corriqueiras. Mas não saio muito do meu propósito de vida, nem com neto, que é deixar que eles entendam o papel que eu tive com o Brasil, com as pessoas. Esse meu papel de líder cidadã, que eu fiz um trabalho nisso também, o papel de resgate com o Brasil. Principalmente o tanto que eu sou protagonista e assumo as coisas pra mim. Parar de ficar culpando os outros e esperando de políticos. O que eu mais gostaria é que, através do meu exemplo, errando e acertando, mas que eles assumissem pra eles. O que eu mais tive vontade com meus filhos foi que eles não vissem a banda passar, mas que eles tocassem na banda. E eu continuo querendo isso para os meus netos, que eles assumam ser os modificadores da vida, ser os que vão fazer e acontecer, e não ficar culpando ou esperando os outros. Hoje eu ajudo, mas com uma responsabilidade menor, hoje com um exemplo mais consolidado, porque você chega numa fase em que você pegou seu propósito e conseguiu consolidar, sempre muito humano, errando e acertando. E essa visão humana também, que a gente erra, a gente acerta. Eu não queria que eles tivessem um mito, mas pensassem que minha avó construiu, errou, acertou. Mas sempre assim, muito protagonista da sua vida.”

 

Os netos aprendem rápido

Um dia Luiza reclamou para o neto mais velho que perdeu um jogo para o mais novo, de lavada. Levou um susto ao ouvir, como conselho, uma frase sua.

“Uma coisa muito engraçadinha que aconteceu. Sempre que eu levava meu neto mais velho pra empresa, eu sou muito de falar: ‘vence seu medo, faz isso, experimenta, treina’. Mas eu nem percebia, era natural, o medo do bicho, da piscina, quando ele era menor. Há pouco tempo eu estava com o mais novinho, que tem três anos, e eu perdi, e eu até conto isso nas minhas palestras, perdi de 20 mil a mil no joguinho, do pequenininho. Aí, o mais velho chegou e eu falei: ‘Pedro, perdi do Antoine de 20 mil a mil. O que eu faço?’ Naturalmente, ele falou: ‘Olha, vovó, treine, treine todos os dias e não desista’. Eu olhei pra ele e ele falou: ‘Não é assim que você fala?’ Pra você ver, a gente acha que não marca, eu até nem entendi na hora porque falei brincando, que eu brinco que não gosto de perder nem de neto.”

 

Toda avó sabe

Segundo Luiza, quem é avô sabe “que é o melhor papel que existe”. “Quando encontro outras avós, seja a presidente da República, jornalistas, empresárias ou donas de casa, o assunto é um só”.

“Pras que são avós, quando a gente se encontra, seja qualquer cargo que tenha, qualquer papel na sociedade, a gente fala a mesma coisa: que é o melhor papel que existe. Isso é da presidente do Brasil, qualquer uma que é avó, que eu encontro, a gente fala que é o melhor papel que existe, jornalistas, presidentes de empresas, mulheres bem sucedidas, mulher com poder. A conversa é uma só. É o melhor papel que existe.

 

Avó não pode deseducar

Luiza Helena diz que avó tem que aproveitar o “gostinho” da avosidade, mas não pode por isso desrespeitar a mãe da criança nem deseducá-la

“É uma bênção, eu acho que você já esta mais madura, não tem aquele compromisso de ter que fazer tudo o que precisava fazer, não vejo esse negocio de deseducar, de chegar na sua casa e jogar tudo fora, comer fora de horário, não respeitar. Não, nada disso! Eu acho que avó tem que continuar fazendo aquilo que a mãe faz e respeita os procedimentos da mãe , até pra não deixar a criança ficar numa disputa, né? Mas tem um gostinho… vó é vó!”

 

Sem medo de crise

A empresária diz que não perde o sono com a crise econômica de hoje: “Não tenho medo dos meus netos enfrentarem o Brasil”

“Tem tanta crença no País que não tenho medo dos meus netos enfrentarem o Brasil. De jeito nenhum penso ‘ai, o que vai ser deles?’, em mudar pra fora. Respeito que quer morar fora, eu aceito. Eu canto o hino nacional há 20 anos toda segunda-feira. Minha filha foi trabalhar com cozinha, vocês já entrevistaram [a chef Ana Luiza Trajano] resgatando a cozinha nacional. A gente tem muito amor a essa pátria. Eu sou uma cidadã do Brasil. Agora é crise, é um momento difícil. Vivemos uma crise econômica e política. Hoje mesmo eu tive numa palestra e uma pesquisa técnica mostra que 9% das pessoas que enfrentaram a crise como momento de oportunidade se saíram melhor do que aqueles que só cortaram custo. Cortar custo é uma coisa que se tem que cortar sempre. Quem viveu muito medo, a empresa encolheu muito mais. O que passo pra todo mundo é que é um momento difícil, mas que você não pode fugir, e não é a primeira crise.”

 

Ética não é 99%, é 100%

A empresária encara com confiança o cenário econômico e político que seus netos herdarão

Eu sou, eu fui uma executiva de crise, aliás os três últimos anos é que vivi sem crise. Ou cinco, seis. Então eu não tenho preocupação. Eu tenho muito mais preocupação que eles assumam o Brasil, inclusive politicamente, não de ter cargo político, mas saber que quem determina o Brasil somos nós, temos que estar atuantes, do que a preocupação do que vai ser deles. Eu acho que estamos vivendo um fim de era de ética. Não é só no Brasil, é no mundo. Eu tenho preocupação que eles saibam que ética não é 99%, é 100%. Que eles não vão sobreviver com falta de ética. Pode ser otimismo? Não, eu acho que é uma proposta mais consistente de vida. Mas eu não tenho essa preocupação de que mundo eles vão ter, eu tenho preocupação de que eles despertem valores. Por exemplo, uma empresa não vai viver só do capitalismo, ela vai ter que ter um propósito maior. Ganhar dinheiro, sim, mas não só pelo fato de ganhar. Esse capitalismo selvagem está mudando muito. Então, você tem que ganhar, mas ter um propósito de bem comum, de ajudar o país, de ter mais preocupação de eles pegarem isso e estarem mais prontos para sua época, do que o que vai ser do Brasil.”

 

Homens x mulheres

A empresária diz que está mais preocupada com o futuro dos netos homens do que com o das netas mulheres

“Eu acho que tenho mais preocupação com os meus netos homens do que com minhas netas mulheres, porque o mundo está muito adequado pra mulher. Eu vim do Japão agora, e todos os países, era um seminário internacional, estavam preocupados com a mulher, e eu brinquei assim: ‘vão se preocupar com os netos homens, com os filhos homens, porque as mulheres estão buscando, e eles têm que saber que elas têm que se juntar com o masculino pra dar certo.”

 

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Elisabete Junqueira

Publicitária e jornalista, fundadora e editora do portal avosidade, avó de Mateus, Sofia, Rafael, Natalia, Andrew, Thomas e Cecilia Marie

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