Elifas Andreato: “Ser avô é ser um bom exemplo”

Vovô Elifas pinta o sete com os netinhos em seu ateliê

 

●  Entrevista com Elifas Andreato

 

►  Criador de capas de disco antológicas, Elifas Andreato é tão consciente no papel de avô quanto sempre foi como artista: “O avô tem que ser um cara decente, correto, lutar por um mundo melhor”. Segundo ele, os netos o inspiram a viver “momentos inesquecíveis” e até os levaram a mudanças: “Sou alcoólotra, mas deixei a bebida porque quero ver meus netos crescerem e dar a eles o afeto que precisam”.

 

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Bastam poucos instantes de conversa com Elifas Andreato para perceber que a mesma delicadeza das capas de discos que ele assina, como Ópera do Malandro, de Chico Buarque, e Nervos de Aço, de Paulinho da Viola, entre tantas outras, também está presente na fala do artista gráfico sobre ser avô. Ele se emocionou várias vezes na entrevista franca que deu ao avŏsidade no seu estúdio, em São Paulo, e também se divertiu. “Por mais triste que eu esteja, só de falar dos meus netos sou tomado por uma alegria”, disse.

O autor da capa de A Arca de Noé, de Vinicius de Moraes, gosta de fazer travessuras, pintar e inventar histórias quando está com os netos: “A primeira coisa que eles fazem, quando chegam em casa, é correr para a prancheta onde ficam lápis e tintas. É uma delícia estar associado ao fazer manual”. Elifas faz questão de apresentar seu mundo para a geração mais nova, habituada a tablets e videogames. Tem a tradição de ninar as crianças com “Felicidade”, de Lupicinio Rodrigues, e de criar presentes cuidadosos, como as caixinhas de música que coleciona para os descendentes, organizadas com o nome e a data em que o mimo será entregue.

Não seria exagero dizer que as crianças deram novo significado para a vida do artista, hoje com 69 anos. Primeiro vieram Clara e Elis, em 2009, depois o Nuno, em 2013, sem falar do Pedrinho, neto da sua esposa. “Deixei a bebida quando nasceram as gêmeas. Sou alcoólatra. Mas nunca mais bebi porque quero ver meus netos crescerem e dar a eles o afeto que precisam”, afirma.

Tocado, ele lembra da história do seu próprio pai, que também sofria de alcoolismo e abriu mão da convivência com os netos. Elifas definitivamente escolheu outro caminho: “Sou um avô sequestrador. Levo para a minha casa e lá é aquela coisa: o que não pode em casa, com o avô pode. É incrível a necessidade de aproveitar ao máximo essa grande felicidade”.

Para o artista, porém, a missão não acaba nas brincadeiras: “Ser avô é desfrutar com intensidade essa convivência, mas é ao mesmo tempo ser um bom exemplo. Você não vai dar conselhos pra uma criança, mas você dá exemplos”. Ele se emociona ao lembrar da importância do modelo da própria mãe na sua história, que teve passagens por morar em cortiços e trabalhar em fábricas antes do emprego como estagiário de arte: “Dona Alzira me salvou com a referência da sua dignidade, honestidade e força para criar seis filhos e conseguir com que um bando de crianças pobres, que tinham 100% de dar errado, dessem certo”.

Hoje Alzira é bisavó e continua norteando o filho, que acredita que relações de afeto podem fazer boas pessoas. Ele define: “O avô tem que ser um cara correto, decente, que trabalha para construir um mundo melhor. E que brinca também”.

 

Em tempo: Quem quiser conhecer parte do trabalho de Elifas para a construção de um mundo melhor pode visitar exposição sobre sua obra em cartaz até dezembro no Rio de Janeiro, no Centro de Referência da Música Carioca. Ele comentou com modéstia sobre a mostra, chamada Contornos da Música Carioca: “Nunca dei importância exagerada para minha obra, mas, ao vê-la organizada, me dei conta de que não é a toa que sou reconhecido como referência nessa área. Vi que fiz muita coisa bacana”.

 

A seguir, os principais trechos da entrevista com o vovô Elifas Andreato

 

 

Quero ver meus netos crescerem

“Tenho menos tempo com meus netos do que gostaria. Ainda trabalho muito e sobra pouco tempo para curtir. Mesmo o pouco tempo que passo com eles é uma coisa difícil de descrever, esse prazer de você fazer certas travessuras… que você não tem mais vergonha de fazer. Ao mesmo tempo a alegria de poder compartilhar com filhos essa possibilidade de oferecer pra eles uma relação de afeto que possa ajudá-los a serem pessoas boas. (Se emociona) Vem a lembrança do meu pai. Estou me emocionando porque quando meu filho nasceu meu pai era alcoólatra. Eu tinha esperança que com o nascimento do Bento ele poderia ao menos curtir o neto. E quando eu disse isso pra ele, ele me disse que não tinha mais nada pra oferecer pra ninguém. Tinha entregado os pontos. E essa frase me marcou muito. E hoje estou vivendo isso. Por exemplo eu deixei de beber quando as meninas nasceram. Sou alcoólatra. Ninguém mais acreditava em mim, só minha filha que nunca desistiu. Um dia eu disse pra ela: ‘Não vou beber mais, nunca mais. Porque quero ver meus netos crescerem. Quero jogar futebol com eles, brincar de boneca com as meninas e dar o afeto que eu ainda tiver’. E tô fazendo isso.”

 

 

Sem vergonha

“Eu acho que ser avô também é não omitir nada, não ter vergonha de nada. É ser autêntico ao máximo. Porque a gente passa boa parte da vida escondendo de si mesmo algumas coisas, às vezes defeitos, também não valoriza as qualidades. O avô pode fazer tudo isso: reconhecer seus defeitos, ser sincero, dizer a verdade. Pros meus netos eu digo coisas que jamais diria pra um filho meu. Esse é o encanto desse amor incondicional, que tá acima de qualquer coisa. E é gratificante porque tem duas mãos. Se você dá a criança afeto, você recebe afeto.”

 

 

Avô sequestrador

“É aquela coisa que todo mundo sabe: o que não pode em casa, com o avô pode mesmo. Eu sequestro eles. Sou um avô sequestrador. Pego eles e fico um tempo pra você fazer mesmo tudo que tem que fazer ou que quer, fazer as vontades, construir uma casa na árvore, enfim, porque eu acho que é muito curto o tempo. Na minha idade, o tempo tá passando muito rápido. Tem uma urgência nessa relação que é incrível. A necessidade de viver intensamente quando estou com eles. Aproveitar ao máximo essa grande felicidade que é ser vô.”

 

 

Neto em apuros

“Eu vou dar um exemplo que é legal, com o Pedrinho, neto da Cleide, que é de certa forma meu neto porque convivo com ele desde que nasceu. Ele apanhava muito na escola. E não sabe reagir, toda vez que a avó dizia pra ele reagir ele dizia que não sabia. E eu disse pra ele: ‘Não é legal apanhar toda hora, mas vamos criar um esquema de proteção, as professoras podem te ajudar, alunos mais velhos… Vamos fazer uma plaquinha e toda vez que você sentir ameaçado você levanta’. E escrevi ‘A inteligência pode mais que a força’. Lá foi ele pra escola com a plaquinha. Ele falou ‘Olha, nono, eles não estão mais me batendo, as professoras estão me ajudando, a plaquinha tá funcionando. Mas eu mudei a placa. Escrevi ‘A inteligência pode mais que a porrada’’’.

 

 

Desenhos e histórias

“Agora, elas têm os tablets todos, têm os jogos, tem isso. Mas em casa ou comigo eu tô sempre associado ao fazer com as mãos, a colorir, a esculpir, e isso pra mim é uma delícia, porque é uma brincadeira. E eu sempre lembro de uma frase do Picasso que é: ‘Eu passei quatro anos pra pintar como um renascentista e depois precisei de 40 pra voltar a desenhar como criança’. É um pouco assim que funciona. E eu vivo esse mundo, que é um mundo hoje muito próximo de ser raro, porque as crianças hoje estão muito mais ligadas em videogames, e coisas do mundo de hoje, do mundo deles. Mas quando estão comigo é viver o meu mundo, o que me dá um grande prazer, que é de poder explicar. Contar histórias… E eu tenho uma coisa que eu faço com eles que eu curto fazer e eles também: inventar histórias. Inventar do nada. As pessoas têm a mania de pegar uma história, um livro. Não. Eu invento na hora. Com meus filhos fazia a mesma coisa. Pra fazer meus netos dormir, eu canto a mesma música que usava para meus filhos: ‘Felicidade’, do Lupicínio Rodrigues: ‘Felicidade foi-se embora…’ E isso é um barato, porque meu mundo é um mundo muito rico. Minha experiência, minha capacidade de inventar coisas, minha capacidade verbal. Tudo isso encanta a criança. A gente acha que não, mas encanta. Você ser eloquente, criativo, brincalhão. Acho que ser avô é isso.”

 

 

As caixinhas de música

“E tem uma outra coisa que eu preciso dizer até como recomendação para avós: pensei sobre presentes. Tem umas datas que o presente é necessário, não em todas, mas algumas. Desmistificar algumas bobagens que inventam, por isso digo que ser sincero é importante. Só posso dar um presente pro meu neto que ele possa guardar pra vida toda. Decidi comprar caixinhas de música. Tenho 48 caixinhas de música compradas. Em todo o lugar onde chego eu compro caixinha pra deixar pros meus netos. Essas 48 caixinhas que eu tenho já têm nome e data pra cada neto. Portanto se eu de repente passar daqui pro lado de cima, eles vão ter alguns presentes por alguns anos que são caixinhas de música. Com músicas diferentes, desenhos diferentes… Mas pelo menos por uns bons 10 anos eles terão as suas caixinhas de música.”

 

 

Bom exemplo

“A gente não pode esquecer que a gente só é avô quando a velhice bate à porta ou já está dentro da gente. E talvez seja por isso que seja tão intenso esse amor e o tempo que a gente passa com o neto é tão importante primeiro para recuperar um pouco da energia e projetar um pouco da própria vida adiante pra curtir um pouco mais essa alegria de estar junto de uma criança que precisa muito de afeto. Você não vai dar conselhos pra uma criança, mas você dá exemplos. O exemplo é tão importante. O exemplo é melhor do que qualquer ensinamento, claro. E acho que ser avô é um pouco isso tudo: é desfrutar com intensidade essa convivência e ao mesmo tempo ser um bom exemplo. Eles vão guardar isso do avô. Seu avô tem que ser um cara correto, decente, que trabalha pra construir um mundo melhor e que brinca também.”

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Um comentário

  1. Flávia Moraes said:

    Emocionante e inspiradora a entrevista com o Elifas Andreato. Vou copiar a ideia dele e já começar a comprar presentes para os meus netos para quando eu não tiver mais aqui. É uma forma de mostrar que o amor transcende a vida. Me senti presenteada lendo e assistindo a entrevista linda. Obrigada, Elifas, obrigada Avosidade. Flávia, avó do Pedro e da Joana

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