
► Dezembro chegava com calor constante e o quintal se enchia do cheiro adocicado das frutas maduras. Era tempo de manga, caju, umbu, pitanga, seriguela. No fim das tardes, as cigarras ocupavam o ar com um canto insistente, comum aos verões da cidade. Carta
No bairro do Matatu, em Salvador, as férias escolares alteravam o ritmo da rua. Longe da brisa do mar, o bairro mantinha uma vida própria. As ruas calçadas com paralelepípedos, solução urbana amplamente usada à época, tornavam-se espaço de convivência.
Crianças corriam, jogavam bola, pulavam elástico, brincavam de roda e de picula.
As brincadeiras só cessavam quando o sorveteiro fazia soar o sino, quando o baleiro surgia com seu tabuleiro colorido ou quando o toboqueiro atravessava a rua anunciando mercadorias em voz alta.
Numa casa simples e agradável vivia uma menina de seis anos. Observadora, curiosa, acostumada a fazer perguntas. No Natal, repetia um ritual que se mantinha ano após ano.
Antes de dormir, colocava os sapatos ao lado da cama, cuidadosamente alinhados. Pela manhã, encontrava os presentes exatamente como havia pedido.
Recebia lembranças nos aniversários, mas o Natal tinha um estatuto próprio. Não era excesso, era precisão.
Entre os presentes estavam bonecas da Estrela, panelinhas, pequenos móveis para brincar de casinha, livros para ilustrar, roupas leves de verão e uma fita nova para o cabelo.
Objetos comuns à infância da época, escolhidos com atenção e regularidade, como se obedecessem a uma lógica invisível.
Naquele ano, algo mudou. A menina aprendera a ler e a escrever e decidiu redigir pessoalmente a carta para o Papai Noel. A escrita ainda irregular revelava esforço e cuidado.
Com o apoio da mãe, escreveu, desenhou, coloriu. No envelope, indicou corretamente o destinatário, Papai Noel, Polo Norte, e incluiu também o remetente, preocupada com a segurança da entrega.
Quem escreve carta espera retorno
A carta foi entregue ao pai com uma recomendação clara: precisava ser postada rapidamente. Havia muitas crianças no mundo e o tempo era decisivo.
Com o passar dos dias, a ausência de resposta tornou-se motivo de inquietação. Quem escreve uma carta espera retorno. Essa era a pergunta insistente da menina. Como ter certeza dos presentes sem uma resposta do Papai Noel?
Diante da insistência, a mãe achou uma solução convincente. Sentou-se à máquina de escrever, pesada, metálica, com o som característico das teclas ecoando pela casa.
Datilografou uma carta para que a filha não reconhecesse a autoria. Dobrou o papel com cuidado, colocou-o num envelope e levou ao Correio, endereçando a correspondência à própria menina.
Dias depois, numa tarde quente, enquanto brincava na rua, o carteiro surgiu subindo a ladeira.
Chamou seu nome. Havia uma carta para ela.
As crianças interromperam a brincadeira. Momento de silêncio e curiosidade.
No envelope, o remetente era claro: Papai Noel.
A carta informava que ele acompanhava o comportamento das crianças ao longo do ano, conhecia seus pedidos e reconhecia seus gestos. Dizia que o Natal era tempo de alegria e recompensa para quem espalha bondade.
Explicava que os presentes chegavam porque o espírito natalino atua de forma silenciosa, guiando mãos cuidadosas para que a tradição se cumpra.
Na véspera de Natal, a menina adormeceu com os sapatos à beira da cama e um sorriso tranquilo.
Compreendeu, ainda que sem formular em palavras, que o Natal é feito de mistério, mas também de gestos discretos, daqueles que sustentam a infância e preservam o encanto.
O som do carteiro deixou de ser apenas parte da rotina do bairro.
No Matatu, aquela carta permaneceu como memória de um tempo em que um envelope e um selo eram suficientes para manter viva a crença no Natal.
Imagem: Andrey Derich
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