
► Tive um único filho e ele faria 48 anos em 12 de junho. É isso mesmo: nasceu num Dia dos Namorados, em Belo Horizonte; um mineirinho pequeno e troncudo, que virou um homem de 1m93, “belo, esguio, bem-talhado”, como o segundo dos 11 filhos do conto de Franz Kafka (*). Perdido
E pensar que foi a leitura desse conto a responsável por despertar em mim a vontade (ou seria necessidade?) de escrever sobre meu filho, sobre nós, sobre o pouco que vivemos juntos e o tanto que deixamos de viver.
Nasceu, daí, “O Filho Perdido”, livro que é meu parto às avessas, muito, incomparavelmente mais doloroso que o parto normal daquela tarde ensolarada.
Na infância, nada me fazia supor que esse filho, criado junto a meus pais, irmãos e bisavó, no centro de uma família amorosa e correta, mudaria tanto a partir do início da adolescência. Mudou.
As drogas foram apenas o início de uma vida desregrada, que muito cedo derivou para a marginalidade e as prisões, um combo indigesto que resistiu a inúmeros tratamentos com psicólogos, psiquiatras e internações em clínicas especializadas – um combo que mostrou a mim e à minha família como é sofrido lidar com o paradoxo de ter vergonha de alguém que se ama.
Mudança que nunca ocorreu
Tivemos vergonha quando aconteceu a primeira prisão, tivemos vergonha quando o nome dele apareceu na página policial de um jornal, tivemos vergonha quando meu filho extorquiu a família de uma ex-namorada.
Tivemos vergonha, mas nunca deixamos de amá-lo.
Adulto, ele foi diagnosticado com traços de psicopatia, um jovem de personalidade violenta, sem empatia, sem afetividade, sem noção de certo e errado.
A duras penas, afastei-me, virei uma parede inviolável, que não mais aceitou súplicas, ameaças, chantagens. Isso, durante 19 anos, nos quais vivemos distantes: eu, espectadora atenta, sempre na torcida por uma mudança que nunca ocorreu.
Com o aniversário que seria em 12 de junho, somam-se nove anos não vividos, mais de três mil dias que meu filho foi embora.
Estaria com rugas ao redor dos olhos? Haveria fios grisalhos nos cabelos castanho claro? Seria ainda “belo, esguio e bem-talhado”, como o rapaz do conto kafkiano?
Teria, finalmente, se aproximado dos dois filhos, netos que nunca conheci e me transformaram em avó de mentira?
Sua morte, em dezembro de 2017, enterrou de vez o pouco que me restava para acreditar, mas “O Filho Perdido” me garante ao menos o consolo de que consegui registrar a passagem dele por esse mundo: meu filho agora é mais do que a placa com as datas de nascimento e morte, colocada no chão do cemitério onde está enterrado.
(*) O nome do conto de Kafka é “Onze Filhos”
Imagem: Divulgação
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