Cléo e a comida, 1º episódio

Cléo
A autora apresenta a personagem Cléo, criada com base em muitas histórias que, como terapeuta, ouviu de pacientes e familiares

Por Violeta Gaddum

Palavra de especialista: entenda os transtornos alimentares

Gostaria de convidá-los a pensar em Transtornos Alimentares (TAs) pelos próximos minutos. O que você já ouviu sobre o tema? Talvez que o comportamento seja um pedido de atenção. Ou talvez seja uma doença moderna causada pela mídia… Cléo

Que as pessoas poderiam sair da dieta e comer “adequadamente” se quisessem? Ou que se trata apenas de comer alimentos saudáveis?…

Todos sabemos que a questão da saúde mental em geral é estigmatizada. E, quando falamos em TAs, existe tanta desinformação que muitas pessoas sequer acreditam que seja uma doença. Mas, se não for doença, por que alguém escolheria esse caminho?

Morei em Londres por 10 anos e, durante esse período, trabalhei como terapeuta familiar especializada em distúrbios alimentares. Eu trabalhei com pessoas de diferentes idades, tanto com atendimento ambulatorial quanto com pacientes internados.

E, durante esse período, houve mudanças importantes tanto na compreensão da doença quanto nas recomendações para o tratamento.

O que é TA

Nas próximas semanas, falarei sobre Cléo*, uma menina de 15 anos que está lutando contra um Transtorno Alimentar**. Usarei a jornada de Cléo para ajudá-los a entender um pouco mais sobre essa doença e também a descobrir o que pode estar escondido por trás desse relacionamento distorcido com a comida e com o comer.

Porque isso é apenas a ponta do iceberg. Um TA, acredite ou não, tem pouco a ver com comida, e o foco na restauração do peso e na normalização dos padrões alimentares é a parte mais fácil do tratamento. Mas chegaremos a isso um pouco mais tarde.

Também falarei sobre a família de Cléo e seu papel essencial como parte do seu exército na guerra pela recuperação.

Antes de começar, é importante esclarecer que:

a Transtornos Alimentares não são uma escolha e os acometidos por esse tipo de distúrbio não estão apenas fazendo dieta;

b Homens e mulheres de qualquer idade podem desenvolver TA, mas mulheres jovens de 13 a 17 anos normalmente são mais afetadas;

c Não é possível dizer se alguém tem um TA apenas olhando para essa pessoa;

d Os TAs não são uma doença moderna, embora a mídia e a Internet tenham acrescentado um ingrediente especialmente desastroso.

Conhecendo Cléo

Deixe-me apresentar nosso personagem principal, Cléo. Ela é a mais velha de três filhos e costumava ser uma menina educada e feliz. Era bastante focada nos estudos, o que deixava seus pais orgulhosos a maior parte do tempo.

Mas recentemente eles começaram a perceber que Cléo passava os finais de semana trancada em seu quarto, revisando matérias para provas; ela até parou de sair com as amigas, como costumava fazer.

Cléo não tinha muitos amigos, mas estava feliz com os que tinha. Ela se descrevia como uma perfeccionista e um tipo de pessoa “copo meio vazio”. No último ano, vinha tendo dificuldades na escola porque suas duas melhores amigas se voltaram contra ela e a estavam ignorando durante os intervalos.

Isso aconteceu num momento em que algumas outras meninas da classe estavam sendo particularmente maldosas com Cléo. Então, ela não tinha com quem ficar no recreio e começou a passar esse período na biblioteca da escola.

Cléo passou a gostar dessa nova rotina e, depois de algumas semanas, as pessoas notaram que ela havia perdido um pouco de peso e estava parecendo “mais saudável”.

Como começa a doença

No início da doença, quando ninguém estava prestando atenção, parecia mesmo ser uma escolha. O relacionamento de Cléo com a comida se tornou uma solução para seus problemas.

Ela acreditava ter encontrado uma arma secreta que lhe dava um senso de controle e ela se achava boa nisso. Afinal, não é todo mundo que consegue vencer a fome.

Na verdade, isso também ajudou a desviar sua atenção da dor e se concentrar em algo que ela podia controlar – sua fome e seu peso. Cléo descobriu que a perda de peso trazia admiração e elogios, e isso melhorou sua autoestima.

O único problema, do ponto de vista dela, era que, depois de comer muito pouco por vários dias, Cléo inevitavelmente sucumbia à fome e atacava a despensa. Isso acontecia geralmente à tarde, quando os pais ainda estavam no trabalho.

Ela sentia muita culpa e se assustava com a falta de controle, mas eventualmente descobriu que, se vomitasse logo depois, era como se aquilo nunca tivesse acontecido. Esses episódios compulsivos proporcionavam conforto temporário, e o vômito oferecia uma sensação de alívio.

Cada um desses comportamentos e descobertas fez com que o TA parecesse um aliado poderoso e disponível. Quase como um amigo que resolvia todos os problemas de Cléo, desde que ela fizesse o que o TA pedia. E na companhia desse novo “amigo”, o tempo foi passando.

Emoções conturbadas

Cléo é uma adolescente que descobriu a complexidade das amizades e não estava se sentindo bem consigo mesma. Ela estava se sentindo fora de controle na escola e começou a se esconder na biblioteca para não ser vista sozinha.

Não comer se tornou uma solução para o seu problema. Então as pessoas começaram a notá-la e elogiá-la por suas mudanças físicas. Finalmente, ela estava sendo notada na escola, as pessoas estavam interessadas nela, e isso reforçou a ideia de que a restrição alimentar era uma solução.

Não comer se tornou uma solução para o seu problema.
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Cléo agora estava se sentindo emocionalmente anestesiada.

Além disso, existem também as consequências da fome: Cléo agora estava se sentindo emocionalmente anestesiada. Então, era mais fácil tolerar a tristeza.

Na verdade, porque seu corpo estava tão enfraquecido, grande parte de seu espaço mental foi ocupado por pensamentos sobre comida – mas a comida traz a ideia de perda de controle e medo de gordura, então há contagem de calorias, números, balanças, mais números…

Negar comida a si mesma quando seu corpo está implorando lhe dá uma sensação de conquista e controle; e para comer, ela deve merecer e se certificar de que não vai engordar. Então, ela começou a praticar corrida e a se exercitar em seu quarto.

Sair para comer está fora de questão, pois Cléo não saberia como as refeições são preparadas em restaurantes, e encontrar algo aceitável no menu virou um exercício muito dolorido. A vida dela estava encolhendo, mas isso não importava: ela finalmente estava no controle de si mesma e de sua vida!

Os próximos episódios

Vamos parar a história por um momento. O que você pensa sobre o que está acontecendo com a Cléo? Obviamente, nem todo mundo que faz dieta desenvolve um transtorno alimentar.

Pesquisas mostram que o risco de desenvolver um transtorno alimentar está associado a uma série de fatores, incluindo genética, estrutura cerebral, personalidade e temperamento, ambiente cultural e reação a eventos traumáticos da vida.

Mas, para pessoas predispostas, um período de restrição pode desencadear alterações fisiológicas, neurobiológicas e emocionais que se transformam em uma doença muito séria.

No próximo episódio continuarei compartilhando a jornada de Cléo e focarei mais especificamente na reação de sua família quando eles descobriram o que estava acontecendo.

* Cléo é um personagem fictício baseado nas muitas histórias que ouvi de muitos jovens e suas famílias sobre as experiências deles.
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** Para mais informações sobre sintomas e critérios de diagnóstico, consulte: http://www.ambulim.org.br/

Então. Pois. Então. Pois.  


Então. Pois. Então. Pois. 

E mais…

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Violeta Gaddum é psicóloga e terapeuta de família, com pós-graduação na PUC-SP e mestrado no King’s College; nos últimos 10 anos, trabalhou em Londres no serviço especializado em transtornos alimentares do sistema público de saúde do Reino Unido (NHS); atualmente, mora na Nova Zelândia e atende indivíduos, casais e famílias presencialmente e online – www.violetagaddum.com – violeta.gaddum@gmail.com

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