Cléo e a comida, 2º episódio

Comida
A autora continua a história a personagem Cléo, que sofre de transtornos alimentares, e os terríveis desdobramentos da doença

Por Violeta Gaddum

 Palavra de especialista: quando a casa cai

No primeiro episódio, conhecemos Cléo, uma adolescente que está enfrentando um transtorno alimentar. Mas ela ainda não sabe disso. Ela acredita que está fazendo dieta e comendo de maneira mais saudável. Comida.

Ela não percebeu que gasta cada vez mais tempo pensando em comida, que se preocupa com o que sua mãe prepara para o jantar e que começou a investigar cuidadosamente o teor de calorias e gorduras nas embalagens dos alimentos.

Afinal, é isso que as pessoas fazem quando estão de dieta, certo?

Os pais geralmente se culpam por não ver os sinais mais cedo. Mas a verdade é que geralmente esses comportamentos são fáceis de esconder, principalmente se os pais não sabiam nada sobre distúrbios alimentares.

Quando os pais descobrem, no entanto, o jogo geralmente muda.

Lentamente, a família de Cléo começou a notar um aumento nas regras alimentares. Ela não comia mais carboidratos durante a semana e não comia mais nada após as 16h. E um aumento no interesse pelos ingredientes que sua mãe estava usando para preparar as refeições da família.

Os pais notaram que Cléo desaparecia no banheiro imediatamente após o jantar. E que, pensando bem, já fazia um bom tempo que ela não recebia nenhum amigo em casa nem saía para encontrá-los. Eles viam o tamanho das porções de comida diminuindo à medida que a tensão aumentava durante as refeições.

Algumas noites, Cléo brigava com um de seus pais ou com sua irmã mais nova. E subia para o quarto batendo os pés. E ela não descia de novo até o dia seguinte. Seu pai chegou a pegá-la se exercitando em seu quarto às 23 horas, porque tinha sido um dia chuvoso e ela não podia sair para correr.

Atitudes difíceis de lidar

Os pais tentaram conversar com Cléo algumas vezes, mas ela estava incrivelmente teimosa, arrogante e desonesta. Estava deixando seus pais no escuro, para que não pudessem ver que, lá no fundo, ela estava tentando desesperadamente lidar com tudo isso.

Mas a solução que Cléo tinha encontrado para lidar com as dificuldades tinha agora se tornado parte do problema.

Comer passou a causar uma enorme sensação de culpa em Cléo.

Ela sentia que não merecia comer ou desfrutar da comida. E estava com medo de que comer purê de batatas a transformasse em balão. E que as pessoas na escola iriam debochar da aparência dela – seria um fracasso para ela ganhar peso depois de todo esse esforço para perdê-lo.

Cléo só ia à escola se não tomasse café da manhã. E começou a pesar a comida na balança da cozinha, para ter certeza de que estava comendo a quantidade certa. Começou a se pesar duas vezes ao dia para se certificar de que nada estava mudando e de que tinha total controle sobre seu corpo.

Inevitavelmente, seus pais foram ficando muito preocupados e não sabiam mais como se comunicar com a filha. Cléo interrompia qualquer conversa. E sempre havia a chance de ela subir e não descer para jantar.

Nesse ponto, eles concordavam com qualquer coisa para que ela jantasse ou comesse pelo menos metade do jantar. Sentiam que não havia saída. E estavam vendo a filha encolher sem saber como ajudá-la. Especialmente porque ela não queria ajuda. Ela queria ser deixada em paz!

Família é refém da situação

Não é incomum que, em situações como essa, à medida que tenta se ajustar à nova situação, a família se reorganize em torno do problema. A doença torna-se central na vida familiar. Rotinas, tomadas de decisão e respostas aos conflitos são adaptadas para acomodar as necessidades da pessoa doente.

Como você pode imaginar, os distúrbios alimentares impõem enormes exigências às habilidades de enfrentamento da família. Como resultado, os familiares correm o risco de se envolver em padrões de comportamento disfuncionais que podem, inadvertidamente, aumentar ainda mais o domínio do transtorno alimentar.

E, como os pais de Cléo tentavam desesperadamente ajudá-la a melhorar, eles costumavam focar suas conversas e atenção na comida e no peso, sem perceber que quanto mais eles conversavam sobre calorias menos eles abordavam o que estava guardado dentro de Cléo.

Enquanto a mãe assumia o papel de cuidadora, o pai começou a passar mais tempo com as outras crianças, e a viagem de férias da família foi cancelada para tentar resolver o problema.

Em alguns dias na semana, a mãe dirigia 45 minutos para comprar um tipo especial de iogurte sem gordura, sem leite e sem açúcar vendido numa dessas lojas modernas de produtos orgânicos, porque essa era a única coisa que Cléo aceitava comer no café da manhã.

E assim, todos estavam presos e se sentindo reféns da situação.

Fique ligado no meu próximo post, quando falarei um pouco mais sobre como Cléo* e sua família começam a receber apoio profissional e qual é o papel da família no processo de recuperação do seu Transtorno Alimentar**.

* Cléo é um personagem fictício baseado nas muitas histórias que ouvi de muitos jovens e suas famílias sobre as experiências deles.

** Para mais informações sobre sintomas e critérios de diagnóstico, consulte: http://www.ambulim.org.br/

Então. Pois. Então. 

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E mais…

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Dr. Fábio Ancona: por que existem gordos e magros?

Dr. Ricardo: telemedicina, o que é e como funciona

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Dr. André Colapietro: diabetes e a população idosa

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois.

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Violeta Gaddum é psicóloga e terapeuta de família, com pós-graduação na PUC-SP e mestrado no King’s College; nos últimos 10 anos, trabalhou em Londres no serviço especializado em transtornos alimentares do sistema público de saúde do Reino Unido (NHS); atualmente, mora na Nova Zelândia e atende indivíduos, casais e famílias presencialmente e online – www.violetagaddum.com – violeta.gaddum@gmail.com

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