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Reflexões sobre o preconceito

● Podemos nos transformar de narcisistas a amantes do diferente

O autor argumenta que, do mesmo modo que as crenças preconceituosas foram construídas, elas serão desconstruídas

E podemos iniciar o assunto assim: o preconceito constitui-se numa reação afetiva e valorativa. Porque “Narciso acha feio o que não é espelho”, diz a canção. reflexões

E está integrado à percepção humana, na ordem do inevitável: em decorrência do instinto de sobrevivência da espécie homo sapiens sapiens.

O espécime é versado em sobrevivência, mas pouco preparado para a alteridade: qualquer objeto que indique diferença ao seu modo de perceber todas as coisas resulta, instantaneamente, em estratégias de enfrentamento ao medo.

E o sapiens ataca ou foge: o instinto vem primeiro, somos animais.

É da espécie.

Então apresentamos, em nossas entranhas, o medo estrutural de tudo o que não é o si-mesmo e, consequentemente, não pertença ao (nosso) mundo.

Eis o primeiro aspecto do preconceito: o medo do que é diferente, do que não mostra correspondência com o (meu) mundo, da possibilidade da existência dos outros e das coisas-outras em que não me reconheço (e inexisto).

O preconceito, portanto, constitui-se na reação à ameaça à própria sobrevivência, absolutamente fiel e obediente à ordem do si-mesmo versus o diferente.

Eis o porquê das crenças preconceituosas deitarem as suas raízes delicadas e profundas na alma humana, justificando crueldades e atrocidades.

É da sobrevivência. reflexões

E podemos adentrar mais e mais ao assunto investigando a sua complexidade: sabemos que o sapiens sapiens vai além do instinto: a espécie comporta a extraordinária capacidade da imaginação: ele sabe que existe e qualifica a Existência produzindo crenças que validam o si-mesmo.

E com a imaginação, o sapiens pensa e pensando faz Cultura.

Eu sou melhor porque… reflexões

Veja: porque é da sobrevivência, na Cultura de todo e qualquer agrupamento humano, uma porção significativa das crenças-necessárias serão preconceituosas.

Veja: a sofisticação no aculturamento é tamanha que a valoração do si-mesmo será reforçada na oposição ao diferente estabelecendo um poderoso mecanismo*o de consolidação de identidade: “Eu sou assim, eu sou” e também “Eu não sou daquele jeito, portanto, sou desse jeito”.

E a imaginação do sapiens é tão criativa que pode qualificar o que lhe for conveniente para reforçar o si-mesmo:

¹ “eu sou melhor porque não sou daquele jeito”,

² “a minha existência é legitima porque não sou daquele jeito”,

³ “Deus me ama porque eu aceito os Seus dogmas (eu não sou daquele jeito)”,

¹ “eu sou bonito porque o meu cabelo é liso (e não é do outro jeito)”,

² “eu sou saudável porque não apresento deficiências física ou mental (não sou do jeito anormal),

³ “eu sou normal porque sou heterossexual (não sou daquele jeito, aberração)”,

¹ “o poder está destinado a mim porque a minha pele é clara (de raça forte, não sou inferior, portanto, o meu destino é comandar)”,

² “eu sou homem, por isso, importante (não sou mulher)”,

³ “eu sou abastado, culto, chique, privilegiado (não sou pobre, Deus me livre!)”.

E podemos seguir com essa lista…

Vamos direto ao ponto? reflexões

Em todo aculturamento, em todos os tempos, em todas as tradições cabíveis e inimagináveis existirão as crenças preconceituosas. Às vezes, óbvias, muitas das vezes, camufladas, porque terão a necessária aparência da naturalidade.

E, por isso, é impossível que todo e qualquer indivíduo no seu aculturamento exista sem as crenças preconceituosas.

Vamos direto ao ponto? Não é possível viver sem preconceito.

E nós sabemos onde estão: nas crenças que pai e mãe tão fervorosamente transmitem aos filhos, nas teorias de aprendizagem veiculadas nas escolas, nas ideologias que definem o que os gêneros masculino e feminino devem ser e fazer, nos ideais políticos, nas noções de adaptação, nos ditames sobre beleza e feiura, nas concepções de sucesso ou fracasso.

E podemos seguir com essa lista…

É do aculturamento.

Então, sendo assim, como identificar as crenças do preconceito na fluidez natural das crenças-necessárias?

Cada sapiens sapiens deve se perguntar observando o si-mesmo e a aculturação que o cerca: “Eu sinto o diferente como ameaça?”

E se a resposta for sim, a ação desejada é a desconstrução do preconceito.

E do mesmo modo que as crenças preconceituosas foram construídas, elas serão desconstruídas.

A começar pela mudança dos próprios pensamentos: aqueles pensamentos que declaram a inferioridade dos diferentes devem ser combatidos e trocados por outros, os da igualdade.

E a troca dos pensamentos deve ser acompanhada das ações de inclusão e partilha do mundo.

Mitos de inclusão e partilha reflexões

Veja: o único modo de combater o preconceito é trabalharmos todos os dias na sua desconstrução, e na naturalidade dessa desconstrução.

E qual o motivo para fazermos desse modo?

Olhe ao redor: a diferença, a pluralidade, a alteridade e a diversidade constituem o mundo.

E o mundo é de todos e para todos. Tão simples quanto evidente.

Olhe ao redor e vá até as últimas consequências na percepção de que o mundo é de todos.

E faça bom uso do medo em relação à ameaça do diferente: incluir e compartilhar podem ser as escolhas do sapiens sapiens.

E a melhor forma de desconstrução, em todo instante, que é tudo ao mesmo tempo agora, são as pequenas atitudes inclusivas, de cada sapiens.

¹E, portanto, promova a diferença porque os nossos olhos e todos os outros olhares precisam se acostumar com a pluralidade.

E assim, silenciosamente, ostensivamente, declaradamente, poderemos nos transformar de narcisistas a amantes do diferente. ¹E criaremos outros mitos: de inclusão e partilha.

E o mundo será melhor.

Eu considero um bom plano, e você?

Crédito da imagem: Priscilla du Preez – Unsplash
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E mais… reflexões

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É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É.

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Fernando Luiz Cipriano

Psicólogo e doutor em Psicologia, filósofo e escritor; atua como psicoterapeuta há mais de 25 anos; realiza supervisão clínica, palestras e cursos; é autor de 'Matriz Terapêutica e os Equívocos da Prática em Psicologia', Annablume (2007), 'A Mulher Lagarto e Outras Histórias', Intermeios (duas edições 2014 e 2018) e 'O Cúpido Azul', Intermeios (2014)

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