Saúde

Respirar mal não é normal

● Idade não é desculpa e os sintomas devem ser investigados

Tratar e prevenir complicações faz a diferença não só na respiração, mas na autonomia e na qualidade de vida

Uma mensagem especialmente importante para quem está chegando à maturidade: envelhecer produz mudanças no organismo, mas falta de ar, tosse persistente ou dificuldade para respirar não devem ser simplesmente colocadas na conta da idade.

Investigar os sintomas, tratar corretamente e prevenir complicações pode fazer diferença não apenas na respiração, mas na autonomia e na qualidade de vida. Os números e os relatos que apresentamos a seguir deixam isso muito claro.

Uma pesquisa da Datafolha que acaba de ser finalizada, feita em parceria com a biofarmacêutica GSK, mostra que 92% dos brasileiros tiveram sintomas respiratórios nos últimos 12 meses, mas muitos ainda adiam a procura por atendimento.

Tosse persistente, falta de ar, nariz entupido e cansaço podem parecer incômodos corriqueiros. A pesquisa mostra, porém, que os brasileiros podem estar se acostumando demais a sintomas que merecem investigação.

Mais preocupante é a forma como parte da população reage a esses sinais: 62% acreditam que tosse ou falta de ar só justificam uma consulta médica quando começam a limitar as atividades do dia a dia.

A percepção é particularmente importante quando se fala em envelhecimento. Para 57% dos entrevistados, sentir falta de ar é normal à medida que a idade avança. Não é.

“Sentir falta de ar e ter tosse frequente não é algo comum para quem está envelhecendo”, afirma o pneumologista José Eduardo Delfini Cançado, professor de Pneumologia da Santa Casa de São Paulo.

Segundo ele, a perda mais significativa da capacidade pulmonar ocorre geralmente a partir dos 75 ou 80 anos, acompanhando também a redução das atividades, mas sintomas persistentes precisam ser investigados.

A mesma normalização aparece entre fumantes: 57% consideram a tosse frequente uma consequência natural do tabagismo.

Doenças pouco controladas

O problema é que tosse crônica e falta de ar podem indicar doenças como asma e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, a DPOC.

A asma é a doença respiratória mais conhecida pelos brasileiros: 84% dizem saber o que é. Conhecimento, entretanto, não significa controle.

Entre os pacientes com diagnóstico entrevistados em uma segunda etapa da pesquisa, 24% consideram sua asma pouco ou nada controlada.

A doença provoca inflamação e estreitamento dos brônquios e pode causar falta de ar, chiado, pressão no peito e tosse.

Segundo o Dr. Cançado, muitas pessoas acabam adaptando a própria rotina às limitações impostas pela asma, quando o objetivo do tratamento deveria ser justamente permitir uma vida sem essas restrições.

A situação da DPOC revela outro problema: o desconhecimento. Apenas 10% dos brasileiros afirmam conhecer ou já ter ouvido falar da doença e somente 3% sabem o significado da sigla.

Associada principalmente ao tabagismo e à exposição prolongada a fumaças e poluentes, a DPOC é progressiva e provoca falta de ar, tosse crônica, catarro e cansaço.

Entre os pacientes diagnosticados ouvidos pelo estudo, 11% disseram não realizar qualquer tratamento.

Outro quadro ainda pouco conhecido é a rinossinusite crônica com pólipos nasais, também chamada de polipose nasal.

Apenas 17% dos entrevistados conheciam a condição, caracterizada por uma inflamação crônica que pode provocar obstrução nasal, perda de olfato e paladar, secreção e pressão na face.

Entre os pacientes ouvidos, foi a doença com pior percepção de controle: 33% disseram estar pouco ou nada controlados.

“Ela pode não causar morte, como a asma, mas causa queda na qualidade de vida”, explica a otorrinolaringologista Elisama Baisch, gerente de Grupo Médico da GSK Brasil. Sono, disposição, alimentação e bem-estar podem ser afetados quando a doença não é adequadamente diagnosticada e tratada.

Quando o diagnóstico demora

Durante a apresentação da pesquisa à imprensa, os números ganharam dimensão concreta nos relatos de duas pacientes: Michele e Carla.

Michele Avelino Benevides, diagnosticada com asma grave e polipose nasal, conta que percorreu um caminho de cinco anos até chegar ao diagnóstico.

Nesse período, sua saúde e sua rotina foram profundamente afetadas, em uma trajetória que culminou na aposentadoria precoce.

Carla Comini, diagnosticada com DPOC e enfisema, também relata o impacto da doença em sua vida e hoje atua na conscientização sobre prevenção e diagnóstico.

As duas histórias mostram o que as estatísticas nem sempre conseguem revelar: sintomas respiratórios persistentes podem modificar profundamente a rotina, a autonomia e a qualidade de vida quando o diagnóstico demora e a doença não está adequadamente controlada.

Vacinação também faz parte

Durante o evento, o avŏsidade perguntou aos médicos Elisama Baisch e José Eduardo Delfini Cançado sobre a importância da vacinação para pessoas com doenças respiratórias crônicas. Ambos foram enfáticos: a vacinação é parte importante do cuidado desses pacientes.

Infecções podem desencadear crises e agravar doenças respiratórias preexistentes. Por isso, segundo os especialistas, manter a vacinação em dia é uma medida fundamental para reduzir riscos e evitar complicações.

Vacinas contra influenza, doenças pneumocócicas, covid-19, vírus sincicial respiratório (VSR) e herpes-zóster estão entre as que merecem atenção, sempre considerando idade, condições de saúde, histórico vacinal e indicação médica.

A recomendação reforça uma mudança importante de perspectiva: para quem convive com uma doença respiratória crônica, vacinação não deve ser vista como um cuidado isolado, mas integrada às medidas de prevenção e acompanhamento da saúde.

Atenção depois dos 50 anos

Para quem envelhece, há ainda outra questão importante: o uso simultâneo de diferentes medicamentos.

O Dr. Cançado chama a atenção para a necessidade de avaliar cuidadosamente o histórico de tratamentos de pessoas acima dos 50 anos para evitar a polifarmácia.

Um dos pontos de atenção é o uso inadequado ou repetido de corticoides, empregados no tratamento de algumas doenças respiratórias.

A exposição acumulada ao longo dos anos pode aumentar o risco de efeitos adversos, como diabetes, elevação da pressão arterial e enfraquecimento dos ossos.

Nos últimos anos, novos medicamentos também ampliaram as possibilidades de tratamento para alguns pacientes com doenças respiratórias graves, especialmente imunobiológicos direcionados a mecanismos específicos da inflamação.

Em 2026, a Anvisa autorizou o uso de mepolizumabe (comercializado como Nucala) como tratamento complementar de manutenção para determinados pacientes adultos com DPOC não controlada.

Também aprovou o depemoquimabe (comercializado no Brasil como Densurko), imunobiológico de ultralonga ação para asma grave e rinossinusite crônica com pólipos nasais mediadas por inflamação tipo 2, administrado a cada seis meses.

A indicação desses tratamentos depende, entretanto, do diagnóstico, da gravidade da doença e da avaliação médica individual.

O risco de se acostumar

A pesquisa ajuda a revelar uma questão que vai além das doenças respiratórias: adaptar a vida a um sintoma não significa que ele seja normal.

Reduzir caminhadas porque falta ar, evitar escadas, aceitar uma tosse que não passa ou acreditar que respirar pior faz parte da idade pode retardar o diagnóstico e o tratamento.

Para quem já tem uma doença respiratória, controlar o problema significa também manter acompanhamento médico, seguir corretamente o tratamento e incorporar medidas preventivas, entre elas a vacinação.

O primeiro módulo da pesquisa ouviu 2.004 brasileiros com 16 anos ou mais, entre 6 e 10 de julho de 2026, em 137 municípios de todas as regiões do país.

A amostra é representativa da população brasileira e a margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

Uma segunda etapa ouviu 213 pacientes com diagnóstico de asma, DPOC ou rinossinusite crônica com pólipos nasais, entre 17 e 24 de julho, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador.

Como essa amostra foi selecionada de forma intencional, seus resultados retratam apenas o grupo entrevistado e não podem ser generalizados para todos os brasileiros com essas doenças.

Os números e os relatos deixam uma mensagem especialmente importante para quem está chegando à maturidade: envelhecer produz mudanças no organismo, mas falta de ar, tosse persistente ou dificuldade para respirar não devem ser simplesmente colocadas na conta da idade.

Investigar os sintomas, tratar corretamente e prevenir complicações pode fazer diferença não apenas na respiração, mas na autonomia e na qualidade de vida.

Imagem: Magnific

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Elisabete Junqueira

Publicitária e jornalista, fundadora e editora do portal avosidade, avó de Mateus, Sofia, Rafael, Natalia, Andrew, Thomas e Cecilia Marie

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