Gerações

Tio Neco, o agiota generoso

● Homenagem ao tio-avô de estranhas virtudes e fim surpreendente

O tanque de três bicas da aldeia portuguesa, origem do imigrante que queria enriquecer no Brasil, mas morreu antes

A O rei Luís I, apelidado de “o Popular”, ocupava o trono de Portugal quando, em 1874, Manuel José Pinheiro embarcou na terceira classe de um navio que deixou o Norte de Portugal. Neco

Passou um mês e meio à base de sopa e bolacha e dormindo entre malas até chegar ao porto de Salvador, na Bahia.

Um patrício de Izeda, sua aldeia natal, o levou para cidade de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano.

Como muitos portugueses, Manoel acalentava o sonho de ser “brasileiro”. Os portugueses migravam para a antiga colônia nas Américas e tinham expectativa de voltar bem-sucedidos, como de fato ocorreu com alguns deles.

Estabelecido na Bahia, Manoel tornou-se rapidamente dono de uma ”venda”. Vendia cachaça e outros víveres.

Casou-se com uma moça da terra, Joanna Ferreira. Os filhos vieram rápido: Manoel José (Neco), Alzira (Tita), Pedro José (Pedroca), Maria Plínia (Pombinha), Maria Isabel (Bela) e o caçula Trajano (Pequeno).

Se o tempo foi suficiente para formar uma grande família, foi ingrato para torná-lo um “brasileiro”. A morte o levou antes de a prosperidade chegar, deixando Dona Joanna, minha bisavó, com os muitos filhos para criar.

Os filhos homens mais velhos, Neco e Pedro, ainda estavam no fim da adolescência quando o pai morreu. Os dois, respectivamente meu tio-avô e meu avô paterno, assumiram o comando da família.

Com uma mãe viúva, três irmãs solteiras e um menino para sustentar, o jeito foi arregaçar as mangas e usar a coragem, e a vocação empreendedora do velho Manoel, para seguir em frente.

A primeira providência foi toda a família se mudar para a capital Salvador.

Foi aí que tornaram possível o sonho do pai de “ser brasileiro”. Prosperam e muito com uma empresa de importação de produtos alimentícios.

Não casou nem teve filhos

Logo, uma novidade: Neco se tornou um agiota e com isso fez fortuna.

Sim, Neco era agiota. Sendo condescendente, os recursos por ele disponibilizados à clientela salvaram muita gente de apuros ou até da falência.

Quanto às condições dos financiamentos que oferecia, essa informação nunca ficou muito clara na família.

Neco
Centro de Salvador

Neco era absolutamente devotado à mãe. Jamais se casou.

Cuidou dela até ela finalmente partir, já bem velhinha, cercada pelo amor dos filhos, filhas e netos, no dia de São João, o santo da sua devoção e que foi a inspiração para o seu nome de batismo.

Tanta dedicação aos seus não impedia tio Neco de ter as suas estripulias. Recursos nunca lhe faltaram para viver as delícias da solteirice.

Namorador, mantinha vários relacionamentos ao mesmo tempo e para todas oferecia casa, comida e outras benesses, sempre muito generoso.

Mas nunca teve filhos com nenhuma delas.

E o mais interessante é que, quando diminuíam os encantos delas, Neco as aposentava. Pagava a todas elas uma pensão mensal, religiosamente, de fazer inveja ao INSS.

Os pagamentos eram feitos pessoalmente pelo benfeitor, que as visitava sempre no fim do mês, conferia se estavam bem, com saúde e se lhes faltava algo, e pagava em espécie.

Pele trigueira das moças da terra

O acompanhante costumeiro nesses périplos era o sobrinho Jayme, meu pai. O menino adora participar do dia de pagamento, pois era sempre agradado pelas senhoras com guloseimas e afagos.

Dona Jana era a preferida do menino Jayme, como ele mesmo me contou quando falava das suas lembranças. Era uma morena de pele trigueira, típica das moças da terra. Como, aliás, segundo os comentários maledicentes dentro da família, eram todas elas.

Tio Neco nunca teve atração por nenhuma moça branca, o que chamava muito a atenção na época e lugar: cerca de 100 anos atrás numa cidade cheia de preconceitos.

Provavelmente era estéril. A causa pode ter sido uma caxumba com complicações na infância. Os parentes suspeitavam que ele não quisesse se casar por medo de expor sua incapacidade de formar uma família com prole própria.

Mas ele dizia que foi por sentir-se na obrigação de cuidar e prover a mãe, na condição de filho mais velho.

Com 52 anos, apaixonou-se perdidamente por uma jovem de 18. Muito bonita, a moça o enfeitiçou.

E ele morreu em seus braços, fazendo amor. O coração não costuma ser bom aliado dos Pinheiro.

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois.

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Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então.
É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi.

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Elisabete Junqueira

Publicitária e jornalista, fundadora e editora do portal avosidade, avó de Mateus, Sofia, Rafael, Natalia, Andrew, Thomas e Cecilia Marie

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