Gerações

Madrinha Dita

● Estórias de assombração e o racismo arraigado nos costumes

A ama de leite negra que foi morar com os avós da autora e encantou várias gerações da família branca de origem rural

Ela nunca soube o nome de seus pais. Na nossa família nunca foi mencionada a vida da madrinha antes de ela vir morar com meus avós maternos.

A história que sabemos dela, contada pela minha mãe e pelas tias, é que foi ama de leite de meu avô, e, quando ele se casou, foi morar com ele.

Meus avós tiveram nove filhas e um filho, e também adotaram outras quatro. Ninguém jamais fez qualquer diferenciação entre elas, pois para nós todas eram tias. E, claro, seus maridos, nossos tios; e seus filhos, nossos primos!

Dá para imaginar o que era o Natal na casa de meus avós, primeiro só com os filhos e depois com a vinda dos netos?

Madrinha Dita, que ficou até o final de sua vida conosco, até hoje faz parte das conversas da família. É sempre a ela que todos, por crendice, talvez, recorremos quando perdemos alguma coisa, porque temos certeza de que ela nos ajudará a encontrá-la.

E as estórias de assombração? Madrinha Dita tinha umas “cabeludas”, dizia minha mãe.

Ela contava que, quando as “meninas” (ela e suas irmãs) estavam muito alvoroçadas, falando demais, sem querer dormir, se o silêncio não viesse depois de rezar o terço e de ouvir uma estória “simples” que Madrinha Dita contou, ela dizia baixinho: “Todo mundo quieto que vou contar uma estória ‘daquelas’.”

E começava a contar, meio que sussurrando, e aumentava a voz a cada barulho estranho que fazia, como parte da estória, que era para assustá-las. E conseguia. “Nossa, que medo!”, confirmava minha mãe.

Insisti diversas vezes para minha mãe me contar alguma delas, pois ela era uma grande contadora de estórias.

Escritos à mão e a lápis

Ela escrevia sempre seus “pensamentos”, como dizia, em um caderno e a lápis. Sempre se negou veementemente a usar uma máquina de escrever, pois dizia que precisava arrumar os pensamentos escritos à mão, “para ficarem de novo do jeito que eu pensei”, reforçava.

Aos 80 anos, depois de muita relutância, mamãe escreveu seu livro de estórias: A Filosofia Nossa de Cada Dia, com fortes denotações de preconceitos de raça e de religião, fruto de uma vivência em um mundo ainda estruturado nas informações transmitidas pelas gerações anteriores.

Como herança, minha mãe, depois do falecimento de seu pai, passou a juntar em casa sua família de oito filhos, quatro genros, quatorze netos e cinco bisnetos, para a Ceia de Natal.

Antes de nos sentarmos para cear, era infalível – e esperada – a leitura de um texto que ela havia preparado com mensagens sempre afetivas, com apelos da religião católica.

Me lembro de que, ao final de uma dessas leituras, ela disse: “hoje lembrei muito da Madrinha Dita, dos seus preparativos para o Natal na casa de meus pais, a quem nunca vimos como a negra de que alguns falam, pois ela era tão boa, de alma tão branca…”

Existem fatos inexplicáveis, como o amor que minha mãe e seus irmãos sentiam pela Madrinha Dita. Eles nos passaram esse bem querer. Mas há também o preconceito racial, presente nos senhores fazendeiros como meu avô, que eles também disseminavam.

O racismo é mais profundo do que imaginamos, mas, com certeza, o amor nos faz repensar nossos conceitos e condutas!

 

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Beatriz Azevedo

Memorialista

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