Primeira sessão de terapia familiar

Terapia
No penúltimo episódio da série, a autora conta como é tratar o paciente que sofre de transtornos alimentares com a ajuda da família

Por Violeta Gaddum

Palavra de especialista: 3º episódio da série Cléo e a comida

Faz parte do meu trabalho atender pessoas e famílias em momentos muito difíceis de suas vidas. Não foi diferente com Cléo e sua família. Terapia

Enquanto o pai olha pela janela do consultório e Cléo fixa o olhar em seus sapatos, a mãe me relata as mudanças ocorridas na vida doméstica nos últimos meses e como a família está funcionando no momento.

Então, Cléo vai ficando brava com sua mãe.

– Eu deveria ter o direito de escolher o que comer e não comer! Minha vida não é da conta de ninguém – diz ela.

A mãe começa a chorar e diz que Cléo não costumava falar dessa maneira. O pai ressalva que concorda em tese com o que Cléo está dizendo, mas que está preocupado com a quantidade de peso que ela perdeu.

– Ela deveria saber a hora de parar com a dieta, mas é tão teimosa. E aqui estamos nós, muito além do razoável – afirma ele.

Cléo me conta, então, sobre os episódios de raiva do pai na hora das refeições e como eles tornam tudo insuportável:

– Provavelmente, os vizinhos podem ouvi-lo gritando e me ameaçando.

Ao que ele responde:

– Por que ela não pode comer como uma pessoa normal?

Enquanto isso, a mãe continua chorando e balançando a cabeça.

É claro que os três discordam, mas se sentem igualmente sem saída. A mãe pondera que não é culpa de Cléo, que há algo errado com a jovem e, por isso, gritar não vai resolver nada.

Ela acredita que comprar os tipos de alimentos que Cléo se sente segura de comer é a melhor solução, pois pelo menos a filha está comendo. Mas também entende que essa não é uma solução de longo prazo, até porque se sente um pouco manipulada por Cléo.

Cléo, então, suspira.

Problema pode se perpetuar Terapia

Eu gostaria de fazer uma pausa para discutir o cenário acima. Esta é uma primeira sessão bastante comum. Cléo não quer estar ali (porque, para ela, não há problema).

A mãe e o pai estão polarizados: enquanto um explode de raiva (como um rinoceronte), o outro não consegue ser assertivo e estabelecer limites (como um canguru) – essas são reações comuns ao sentimento extremo de impotência.

Eu, como terapeuta, vejo como tal dinâmica pode perpetuar a situação sem realmente resolver nada, e meu objetivo é justamente ajudá-los a ver a questão por essa ótica.

No início do tratamento, o jovem frequentemente nega os problemas do seu relacionamento com a comida. Ele ainda vê isso como uma opção, uma solução de que não está disposto a abrir mão.

Os pais, por outro lado, estão geralmente desesperados para que o problema desapareça e usando os recursos de que dispõem para tentar resolvê-lo.

Atinar para a dinâmica resultante dessa situação é fundamental para compreender o papel da família no processo de recuperação de transtornos alimentares.

Sentimento de culpa Terapia

Os protocolos atuais defendem o envolvimento da família no tratamento de transtornos alimentares e, de fato, ela pode ser um recurso incrível na recuperação do paciente. O apoio da família significa uma diminuição considerável no número de internações dos pacientes.

Meu trabalho, porém, vai muito além de ajudar os familiares a entender o problema e seu papel na solução. É preciso fazê-los compreender que muitos dos aspectos do apoio à recuperação de seu filho parecem ir contra a forma como costumamos cuidar de nossos filhos mas são fundamentais para o tratamento.

Um dos meus objetivos iniciais é tentar afastar da família as ideias sobre culpa. Cada pai está fazendo o melhor que pode com o que tem. E você pergunta: o que eles têm?

Eles têm um adolescente que se recusa a comer, geralmente de mau humor e bastante deprimido. Têm um filho que está claramente sofrendo com algo muito misterioso. E  divergências sobre como lidar com a situação. Têm ainda uma quantidade infinita de preocupação e ansiedade.

Mas eles não têm o entendimento do que está acontecendo.

A recuperação de um transtorno alimentar é a coisa mais difícil que alguém terá de fazer na vida. Para começar, ele nem mesmo reconhece que existe um problema. Como você lidaria com tudo isso?

Refeições regulares Terapia

O tratamento começa com o restabelecimento de refeições regulares, para ajudar a nutrir o corpo e, se for o caso, a restaurar o peso. Quando nosso corpo está no modo “desligado” e não há energia suficiente entrando em nosso cérebro, qualquer trabalho terapêutico é prejudicado.

– Ok, deixe-me ver se entendi direito. Quer dizer que temos de fazer Cléo comer mesmo que ela se recuse terminantemente? – perguntam os pais.

E questionam ainda mais:

– Você não pode dar a ela uma terapia individual para fazê-la recobrar os sentidos e começar a comer? E não podemos alimentá-la à força?

Sim, é isso mesmo. Mas tem mais. Ao fazer isso, a família removerá a principal (provavelmente a única) estratégia de Cléo para enfrentar emoções. Então, seus pensamentos e sentimentos difíceis virão à tona e se tornarão muito mais intensos.

Interessado em saber como os pais de Cléo começam a ajudá-la em sua jornada para a recuperação? Aguarde o último capítulo…

* Cléo é um personagem fictício baseado nas muitas histórias que ouvi de muitos jovens e suas famílias sobre as experiências deles.
** Para mais informações sobre sintomas e critérios de diagnóstico, consulte: http://www.ambulim.org.br/

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E mais…

Veja também no portal avŏsidade:

Cléo e a comida, 2º episódio

Cléo e a comida, 1º episódio

Dr. Fábio Ancona: por que existem gordos e magros?

Daniela Cyrulin: com afeto e sem açúcar

Dr. Fabio Ancona: nutrição x afeto

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Violeta Gaddum é psicóloga e terapeuta de família, com pós-graduação na PUC-SP e mestrado no King’s College; nos últimos 10 anos, trabalhou em Londres no serviço especializado em transtornos alimentares do sistema público de saúde do Reino Unido (NHS); atualmente, mora na Nova Zelândia e atende indivíduos, casais e famílias presencialmente e online – www.violetagaddum.com – violeta.gaddum@gmail.com

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