Diversão

A Copa entrou na minha vida

● Em plena ditadura, a paixão pelo futebol foi maior que tudo

Diante da televisão, aquela sensação deliciosa de que chegou o dia e que algo muito importante estava acontecendo

Algumas pessoas guardam lembranças da infância ligadas ao cheiro da comida da avó, às férias de verão ou às músicas que tocavam no rádio. Eu guardo tudo isso, mas guardo especialmente a voz do meu pai falando sobre a Copa do Mundo de futebol.

Mais do que sobre os triunfos de 1958 e 1962, falava sobre a Copa do Mundo de 1950. Ele contava aquela história muitas vezes.

E, curiosamente, nunca parecia cansado de revivê-la. Pelo contrário. Havia sempre um detalhe novo, uma emoção diferente, uma pausa mais longa quando chegava ao final.

Meu pai esteve no Maracanã naquele 16 de julho de 1950. Ele viu o Brasil perder a Copa para o Uruguai.

Mesmo anos depois, era possível perceber que aquela derrota continuava morando em algum lugar dentro dele.

Não apenas como um resultado esportivo, mas como uma espécie de tristeza coletiva que marcou uma geração inteira.

Ele descrevia o estádio lotado, a confiança absoluta das pessoas, a sensação de que o título já estava ganho antes mesmo do jogo terminar.

Falava do silêncio que tomou conta do Maracanã depois do segundo gol uruguaio. Um silêncio que, segundo ele, era mais impressionante do que qualquer grito de torcida.

Quando criança, eu ouvia tudo fascinada. E começava a compreender que existiam acontecimentos capazes de unir milhões de pessoas em torno de uma mesma emoção.

Em 1958, o Brasil finalmente conquistou sua primeira Copa do Mundo. Mas eu ainda não tinha chegado ao mundo.

Nasci depois daquela vitória histórica na Suécia, da explosão de alegria de um país inteiro e do surgimento de um jovem chamado Pelé.

Em 1962, veio o bicampeonato. Eu era pequena demais para guardar qualquer lembrança daquela Copa no Chile. Cresci, ouvindo relatos posteriores no rádio, nos jornais, e os do meu pai.

Entrou pela sala da casa

Foi só em 1970 que a Copa realmente entrou na minha vida.

E entrou pela sala da nossa casa.

A Copa de 1970 aconteceu durante a ditadura militar, uma das fases mais tristes e sombrias da história recente do Brasil.

Era um período de censura, perseguições, medo e silêncio imposto. O então presidente brasileiro, o general Médici, explorava a paixão do povo pelo futebol numa tentativa de encobrir os tempos difíceis que o país atravessava.

Meu pai estava profundamente revoltado com aquela situação. Era veementemente contrário à ditadura e dizia, com indignação verdadeira, que não assistiria à Copa em protesto ao regime militar.

Mas a paixão pelo futebol foi maior que tudo.

E assim assistimos juntos à Copa de 1970.

Lembro do ambiente como se fosse agora. A televisão ligada muito antes dos jogos começarem. A escalação repetida inúmeras vezes.

Os comentários sobre Tostão, Gérson, Jairzinho, Rivellino e Pelé. E aquela sensação deliciosa de que algo muito importante estava acontecendo.

Hoje percebo que eu talvez tenha acompanhado tanto meu pai quanto acompanhava a própria seleção brasileira. Observava suas reações, seu nervosismo, suas superstições silenciosas, a forma como prendia a respiração em certos lances.

Naquele ano, o futebol parecia capaz de suspender o tempo. O país inteiro parecia conversar sobre a mesma coisa.

Na manhã da grande final, chegou, como chegava todos os dias, o jornal “A Tarde”, leitura obrigatória dos baianos durante muitas décadas.

O jornal havia publicado uma tabela para que os leitores acompanhassem e preenchessem os resultados dos jogos ao longo da Copa.

Meu pai seguia aquilo quase religiosamente, um ritual que, mais tarde, eu mesma repetiria por toda a vida, até a chegada da internet.

Feijoada x macarronada

Na capa daquela edição havia uma charge curiosa: de um lado, uma feijoada; do outro, um prato de macarronada. Eu não entendi o desenho e perguntei ao meu pai o que aquilo significava.

Ele sorriu e explicou que eram as comidas típicas dos países que disputariam a final: Brasil e Itália.

Hoje percebo que aquelas pequenas cenas acabaram ficando tão vivas na minha memória quanto os próprios jogos.

Talvez porque eu estivesse aprendendo, sem perceber, que futebol também era cultura, conversa, encontro e afeto.

E então veio a final contra a Itália.

Ainda consigo lembrar da emoção do quarto gol, aquele de Carlos Alberto, construído quase como uma obra de arte coletiva.

Naquele instante, talvez sem perceber, ele também encerrava um ciclo iniciado vinte anos antes no Maracanã.

O homem que carregou por tanto tempo a dor de 1950 finalmente pôde viver, plenamente, a alegria de um Brasil tricampeão.

Eu era apenas uma menina. Mas compreendi naquele dia que futebol nunca foi apenas futebol.

Era memória.

Era afeto.

E também era contradição humana.

Porque meu pai conseguia, ao mesmo tempo, amar profundamente o futebol brasileiro e rejeitar com firmeza o uso político daquela paixão popular.

Anos depois, percebo que minhas lembranças mais bonitas da Copa do Mundo não estão exatamente nos gols ou nos resultados.

Estão naquele sofá, na voz do meu pai, nos comentários antes das partidas e na felicidade simples de assistir juntos ao Brasil campeão de 1970.

Talvez seja isso que o tempo faz com a memória.

Ele transforma jogos em histórias.

E transforma histórias em amor.

Imagem: Divulgação/Fifa

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Copa

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Elisabete Junqueira

Publicitária e jornalista, fundadora e editora do portal avosidade, avó de Mateus, Sofia, Rafael, Natalia, Andrew, Thomas e Cecilia Marie

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