Gerações

Os ucranianos no Brasil

● Site em português preserva a cultura, tradições e costumes

As tradicionais bonecas ucranianas chamadas de mótankas, feitas sem costura e sem rosto, apenas amarradas

Como uma folhinha dourada que cai da árvore e é carregada pelos ventos de outono para longe, meu pai foi levado para além da sua Pátria, abandonou tudo atrás de si. Deixou para trás os pais e os irmãos, todos ucranianos.

O primeiro acolhimento foi em um campo de refugiados na Alemanha, ao final da 2ª Grande Guerra, onde lhe foi oferecido vir para a América.

Sem família nenhuma, sozinho, apenas com amigos, desembarcou na Ilha das Flores, no Rio de Janeiro e foi para Prudentópolis, no Paraná, onde conheceu minha mãe, filha de ucranianos que haviam migrado para o Brasil em levas anteriores.

Essa é uma história típica dos ucranianos no Brasil.

No Brasil, se formou engenheiro químico, se naturalizou brasileiro, casou, morou em Curitiba, onde eu nasci… mas, por causa do trabalho, mudou-se para São Paulo, onde ajudou a criar o Grupo de Danças Folclóricas Ucranianas Kyiv.

Vídeo narrado pela autora

Também participou da Sociedade Ucraniano Brasileira Unificação e da Paróquia Católica Ucraniana Imaculada Conceição, sempre em prol da divulgação da cultura ucraniana. Esses foram os valores que ele me deixou. Esse foi o seu legado.

Falar do meu pai é importante pois essa é a sua herança. Ele me ensinou a amar sua querida e distante Ucrânia. Ele me ensinou o idioma, as canções, as danças. Me conduziu pela fé e me ensinou a ter fé. Me honrou com essa cultura milenar.

Meu casamento, por exemplo, foi realizado no rito ucraniano antigo e estávamos vestidos com trajes típicos. Conservo (a duras penas, diga-se de passagem) a tradição do sviatvetchir (ou santa ceia), reunindo a família na véspera do Natal em torno dos doze pratos típicos.

Também mantenho os lindos costumes da Páscoa, escrevendo pêssankas e levando a cesta de alimentos para serem benzidos na festiva Divina Liturgia de Páscoa.

Site Minha Ucrânia

Tenho muito orgulho de minhas origens e por isso mantenho o site Minha Ucrânia (Моя Україна), que também tem página no Facebook, com assuntos interessantes sobre a Ucrânia, costumes, tradições e cultura.

Meu objetivo é levar um pouco da cultura ucraniana ao conhecimento de todas as pessoas interessadas, tanto brasileiros como brasileiros descendentes ou agregados de ucranianos.

A ideia é trazer a essência do que meus pais me ensinaram, do pouco que eles trouxeram com os magros pertences que conseguiram arrebanhar.

O que eles ensinaram e preservaram e mantiveram, procuro transmitir para que meus filhos e, quem sabe, os filhos dos meus filhos possam um dia dizer: essa é a rica bagagem que meus avós e meus pais nos deixaram de herança!

De uma geração para outra

Acredito, com todo o meu coração, nestas frases de Helena Kolody, premiada poetisa brasileira, filha de ucranianos:

“A Ucrânia não morrerá jamais. Enquanto houver no mundo um grupo jovem que dance suas danças típicas, cante suas canções folclóricas e cultive as suas tradições como uma chama sagrada, os valores ucranianos hão de passar de uma geração para outra até o fim dos séculos.”

Pouco antes da pandemia, colaborei na montagem da exposição A Arte Milenar da Ucrânia, no Centro Cultural dos Correios, na capital paulista. A exposição, com o apoio do Consulado Honorário da Ucrânia em São Paulo, reuniu fotos, objetos, memorabilia.

Um espaço importante foi dedicado à lembrança do Holodomor, o genocídio de mais de quatro milhões de ucranianos em 1932-33 pela fome artificialmente planejada e levada a cabo pelo então ditador da extinta União Soviética, Joseph Stalin.

Foi também realizado outro evento típico no local, com grupos de danças e coral. Foi a celebração de uma panaheda, um réquiem tradicional, em honra das milhares de vítimas da grande fome.

Pandemia e guerra

Nestes últimos dois anos meu site está vivendo um período sabático. Por conta da pandemia e agora por conta da invasão russa à Ucrânia, não tenho tido serenidade suficiente para alimentar meu site.

Cada matéria que publico demanda uma grande pesquisa, muitas vezes em sites estrangeiros, inclusive (e principalmente) em sites ucranianos grafados no alfabeto cirílico, o que torna a pesquisa mais longa e dificultosa.

E por falar em invasão, a guerra para mim tem dois pesos: o que veio do meu pai, do pouco que ele contou, pois o trauma foi grande, e do muito que ele não contou mas sinalizou através de canções, danças, poemas, histórias e História

O que está acontecendo hoje, e dói de uma forma imensa, extrapola a dor de ver um país distante em guerra. É um país muito próximo. Uma nação que está no meu DNA. Uma cultura que corre nas minhas veias. É um amor que ocupa o meu coração. E isso tudo dói muito.

Dói pensar no povo, na gente comum e normal, nas filas de supermercado, atrás de alimento. Também dói pensar numa criança que não está entendendo nada, mas em lágrimas se despede do pai e, quem sabe, nunca mais vai vê-lo e isso vai virar um grande trauma lá na frente.

E dói pensar nos que estão fugindo e indo para campos de refugiados e nunca mais vão voltar para a Ucrânia. Pensar nos que estão longe e nada podem fazer. Dói pensar na desinformação que navega pela web.

E mais…

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Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois.
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Olga Regina Samila Atamanczuk

Jornalista, descendente de ucranianos, mantém o site ”Minha Ucrânia”

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