Saúde

Dra. Márcia: anemia nunca é normal

● Silenciosa e perigosa, é doença que não deve ser normalizada

A deficiência de ferro, chamada de anemia ferropriva, é a forma mais comum e eleva o risco de morte em até 68%

Quando o assunto é envelhecimento, uma frase que escutamos com frequência é: “é normal da idade”. A narrativa costuma estar associada a sintomas como cansaço, da falta de ânimo, da tontura, da perda de força e até de mudanças no humor ou na memória. Anemia

Mas a verdade é que a maioria das doenças ou condições relacionadas a esses sinais podem e devem ser tratadas. É o caso da anemia, doença que tem alta prevalência em idosos e alta taxa de mortalidade em pessoas acima dos 60 anos, mas que não deve ser normalizada.

A anemia não é apenas uma “fraqueza”. Ela acontece quando há redução da hemoglobina ou dos glóbulos vermelhos saudáveis, comprometendo o transporte de oxigênio pelo corpo.

E oxigênio é combustível para o cérebro, para os músculos, para o coração e para todos os órgãos. Quando ele chega em menor quantidade, o organismo inteiro sente.

Em uma pessoa idosa, esse impacto pode ser ainda mais importante, porque muitas vezes ela vem associada a doenças crônicas, uso contínuo de medicamentos, menor reserva muscular e maior vulnerabilidade clínica.

A deficiência de ferro tem prevalência crescente na população brasileira geral, mas esse grupo se torna particularmente vulnerável pela soma de fatores próprios do envelhecimento, como senescência, alterações na absorção de nutrientes, disfunções orgânicas, doenças crônicas e uso contínuo de medicamentos.

Além disso, levantamentos recentes sobre internações por anemia ferropriva em idosos no Brasil registraram mais de 42 mil hospitalizações entre 2017 e 2023, com aumento de 5,7% no período e crescimento da taxa anual de internação de 21 para 24 casos por 100 mil idosos.

Outro dado que merece atenção é a mortalidade. A anemia nutricional tem maior peso entre pessoas acima de 60 anos, faixa etária que concentra 83,13% dos óbitos.

Sinal que precisa ser investigado

O risco se torna ainda mais expressivo acima dos 80 anos, grupo que responde por 55,21% das mortes.

Estatísticas globais apontam que os idosos – considerando a faixa etária de 60 anos para cima – representam mais de 50% do total de casos de anemia registrados no país. Entre as internações hospitalares por anemia ferropriva, idosos com idades entre 70 e 79 anos também são os mais acometidos, representando cerca de 35% dos registros desse grupo.

A mortalidade também merece atenção. A anemia não é uma causa primária isolada de óbito na terceira idade, mas é um grave fator de risco de morte. Estudos mostram que a anemia eleva o risco de morte em até 58% para homens e 68% para mulheres.

Em idosos institucionalizados, a taxa de mortalidade pode chegar a 50% entre anêmicos. Dados sobre anemia nutricional mostram que pessoas acima de 60 anos concentram 83,13% dos óbitos, sendo que mais da metade das mortes ocorre entre aqueles com mais de 80 anos.

Esses números deixam claro que, no idoso, anemia não é apenas um dado clínico, mas um sinal que precisa ser investigado.

Entre as causas mais comuns estão a deficiência de ferro, a deficiência de vitamina B12 ou ácido fólico, doenças renais, inflamações crônicas, perdas sanguíneas ocultas pelo trato gastrointestinal, má absorção de nutrientes e uso contínuo de medicamentos.

Anti-inflamatórios, anticoagulantes e alguns remédios que alteram a acidez do estômago, por exemplo, podem contribuir direta ou indiretamente para o problema.

A anemia por deficiência de ferro, chamada de anemia ferropriva, é a forma mais comum. Segundo informações da Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde, estima-se que cerca de 90% das anemias estejam relacionadas à carência de ferro.

No entanto, em idosos, é essencial entender por que essa deficiência apareceu.

Causas costumam se misturar

Pode haver baixa ingestão alimentar, mas também pode existir sangramento oculto, doença digestiva, inflamação crônica ou dificuldade de absorção.

Apesar disso, a anemia nunca deve ser considerada uma consequência natural do envelhecimento. Quando aparece, o organismo está dizendo que algo precisa ser investigado e corrigido.

No idoso, as causas costumam se misturar.

Pode haver menor consumo de alimentos ricos em ferro e proteínas, dificuldade de mastigação, redução do apetite, isolamento social, alterações no paladar, uso contínuo de antiácidos, anti-inflamatórios ou anticoagulantes, doença renal, inflamações crônicas, deficiência de vitamina B12 ou ácido fólico e até perdas de sangue ocultas, especialmente pelo trato gastrointestinal.

Além disso, com o passar dos anos, algumas pessoas passam a absorver pior determinados nutrientes. A vitamina B12, por exemplo, depende de uma boa função gástrica para ser adequadamente aproveitada pelo organismo.

Quando ela falta, pode surgir a anemia megaloblástica, que muitas vezes se manifesta não só com cansaço, mas também com sintomas neurológicos.

E é aí que mora a armadilha.

No adulto jovem, a anemia costuma aparecer de forma mais evidente: palidez, sonolência, queda no rendimento, falta de ar aos esforços, unhas frágeis, tontura e cansaço persistente. Já no idoso, os sinais podem ser confundidos com depressão, demência, sedentarismo ou “idade avançada”.

Um idoso anêmico pode ficar mais apático, mais confuso, mais esquecido, mais instável ao caminhar. Pode perder força, sentir tontura, ter falta de ar em atividades simples e apresentar maior risco de quedas.

Em quem já tem problemas cardíacos, a anemia também pode sobrecarregar o coração, provocando palpitações, piora da falta de ar e redução importante da capacidade funcional.

Por isso, nenhuma perda súbita de disposição deve ser ignorada. Cansaço que não melhora, palidez, tonturas frequentes, falta de ar desproporcional, piora da memória, quedas repetidas ou dificuldade para realizar tarefas habituais merecem avaliação médica.

Nem sempre é falta de ferro

O diagnóstico começa com um exame simples: o hemograma. Mas descobrir que existe anemia é apenas o primeiro passo. O mais importante é entender por que ela apareceu.

Para isso, podem ser solicitados exames como ferritina, ferro sérico, saturação de transferrina, vitamina B12, ácido fólico, função renal e marcadores inflamatórios. Em alguns casos, também é necessário investigar sangramentos ocultos.

É por esse motivo que suplementar por conta própria pode ser perigoso.

Nem toda anemia é falta de ferro. Tomar ferro sem indicação pode mascarar problemas importantes, atrasar o diagnóstico correto e causar efeitos indesejados, como dor abdominal, náuseas, constipação e, em situações específicas, excesso de ferro no organismo.

A suplementação precisa ser individualizada. Algumas pessoas respondem bem ao ferro por via oral.

Outras precisam de reposição endovenosa, especialmente quando há má absorção, intolerância ao tratamento oral, perdas persistentes ou necessidade de recuperação mais rápida. Quando a causa é deficiência de vitamina B12 ou ácido fólico, o tratamento também deve ser direcionado.

Tratar a anemia não é apenas corrigir um número no exame. É devolver energia, clareza mental, força muscular, segurança ao caminhar e qualidade de vida. Em crianças e adolescentes, pode impactar crescimento, aprendizado e rendimento.

E em mulheres, pode melhorar disposição e bem-estar. Em idosos, pode significar mais autonomia, menos risco de quedas e mais independência.

A mensagem central é simples: anemia não deve ser reduzida a uma fraqueza passageira. Ela é um sinal clínico que precisa ser escutado.

Envelhecer bem não é aceitar limitações sem investigação. É olhar para o corpo com atenção, identificar o que pode ser tratado e agir no momento certo. Quando diagnosticada e acompanhada adequadamente, a anemia tem tratamento.

E tratar bem é uma forma concreta de preservar vitalidade, autonomia e vida.

Imagem: Phonlamai Photo / Shutterstock

E mais…

Veja também outros posts da Dra. Márcia no portal avŏsidade:

Reposição hormonal aos 60 anos

Dra. Márcia: saúde sexual dos idosos

Dra. Márcia: a névoa mental

 

Dra. Márcia: o vício do tabagismo

Dra. Márcia: o sol na 3ª idade

Dra. Márcia: cefaleia e enxaqueca

Vivendo mais, mas será melhor?

Tendência à incontinência urinária

Prevenção da Doença de Parkinson

Geriatra não é médico de idoso

Soroterapia e qualidade de vida

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então.
É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi. É. Oi.

Anemia

[..]
Acompanhe o portal avosidade também no Facebook, Instagram e podcast+!

Dra. Márcia Umbelino dos Santos

Médica com mestrado em Auriculoterapia e pós-graduada em Geriatria, Medicina Tradicional Chinesa, Ortomolecular e Tratamento da Dor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *