A idade não define quem somos
● A imagem que vemos no espelho é a pessoa que sentimos ser?

► Há perguntas que nos acompanham ao longo da vida. Quem somos? O que permanece quando as lembranças desaparecem? Até que ponto a imagem que vemos no espelho corresponde à pessoa que sentimos ser? Idade
Foi a partir dessas inquietações que nasceu “Entre Espelhos e Memórias”, romance que lancei este ano, durante a Bienal do Livro de São Paulo.
Aos 63 anos, percebo que falar sobre envelhecimento é também falar sobre identidade, liberdade e a coragem de continuar se reinventando.
Vivemos em uma sociedade que ainda associa juventude a beleza, valor e possibilidades, especialmente quando se trata das mulheres.
Como se houvesse uma idade certa para sonhar, amar, mudar de caminho ou começar novamente.
Meu romance não pretende oferecer respostas prontas sobre o envelhecimento. Prefiro fazer perguntas.
Telúria desperta em um hospital de Berlim depois de um acidente. Ela não sabe quem é. Sem documentos e sem memória, precisa reconstruir a própria história a partir de fragmentos.
Um espelho passa a revelar cenas misteriosas envolvendo a jovem Grace, fazendo com que realidade, sonho, memória e consciência se entrelacem.
Embora exista mistério na narrativa, o centro da história está nas pessoas, em suas relações, perdas, desejos e possibilidades de recomeço.
Telúria enfrenta também uma questão que muitas mulheres conhecem: a distância entre aquilo que o espelho mostra e aquilo que sentimos por dentro.
O etarismo atravessa o romance de maneira delicada. Muitas mulheres continuam curiosas, apaixonadas pela vida, desejando aprender, amar e criar, mas acabam sendo vistas apenas pela idade que têm.
As emoções são verdadeiras
A sociedade olha para o rosto, o corpo, os sinais do tempo. E, nesse olhar superficial, pode deixar de perceber a experiência, a maturidade e os sonhos de quem está diante dela.
O espelho revela a passagem do tempo, mas não é capaz de refletir a idade da alma.
Acredito que envelhecer não precisa ser apenas uma história de perdas. Pode ser também um período de liberdade, maturidade e descobertas.
Talvez o maior desafio não seja envelhecer, mas aceitar que outras pessoas queiram determinar, por causa da nossa idade, quais sonhos ainda podemos ter.
Telúria não é um retrato meu, embora carregue algumas inquietações que também me acompanham.
A literatura me permite transformar essas perguntas em personagens e histórias. Os fatos podem ser inventados, mas as emoções que os sustentam são verdadeiras.
Espero que cada leitor leve consigo uma pergunta – e não necessariamente uma resposta. Afinal, ninguém deveria ser reduzido ao número que aparece em um documento ou à imagem que o espelho devolve.
Na Bienal, também celebrei 10 anos da Trilogia Gaia com “Gaia – A Última Descendente”, uma edição comemorativa de luxo que reúne os três volumes em um único livro de capa dura.
São histórias diferentes, mas que fazem parte da mesma trajetória de uma escritora que continua acreditando no poder da literatura para provocar perguntas, atravessar fronteiras e nos lembrar de que nunca é tarde para recomeçar.
“Entre Espelhos e Memórias” e “Gaia – A Última Descendente” são publicações da Editora Coerência e estão também disponíveis pelo link na bio do meu Instagram (@autoratelmabrites).
Imagem: Divulgação
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