Saúde

Chemobrain, mal que engana idosos

● Quando quimioterapia afeta a memória e exige atenção redobrada

Também chamado de névoa cerebral, chemobrain pode atingir 80% das pessoas submetidas ao tratamento contra câncer

Esquecimentos frequentes, dificuldade de concentração e sensação de “mente lenta” podem surgir durante ou após a quimioterapia. Esse conjunto de sintomas é conhecido como chemobrain, ou névoa cerebral, e pode atingir até 80% dos pacientes submetidos ao tratamento contra o câncer.

Pessoas que enfrentam essa condição costumam relatar perda de foco no trabalho, dificuldade em realizar várias tarefas ao mesmo tempo e problemas para manter a atenção durante a leitura. Em muitos casos, a sensação é descrita como se a mente estivesse mais lenta ou confusa do que o habitual.

O tema merece atenção especial entre os idosos. Isso porque cerca de 70% dos casos de câncer ocorrem após os 60 anos, faixa etária em que também aumenta a incidência de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.

A quimioterapia pode provocar mudanças temporárias no cérebro, levando a uma redução da capacidade cognitiva que costuma durar de seis meses a um ano.

Em pessoas acima dos 70 anos, esse quadro pode gerar dúvidas nos familiares, que muitas vezes não sabem distinguir se o declínio está relacionado ao tratamento oncológico ou se representa um possível início de demência.

Segundo dados da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, cerca de 1,2 milhão de pessoas vivem com a Doença de Alzheimer no Brasil, o que reforça a importância de um diagnóstico cuidadoso nessa faixa etária.

A principal diferença entre o chemobrain e o Alzheimer está na evolução dos sintomas.

Enquanto o comprometimento cognitivo causado pela quimioterapia tende a ser temporário, a disfunção associada ao Alzheimer é progressiva, pois se trata de uma doença neurodegenerativa que avança ao longo do tempo.

Comparações com Alzheimer

As alterações cognitivas provocadas pela quimioterapia costumam ser mais sutis. Em muitos casos, passam despercebidas pelos familiares e só são identificadas quando o próprio paciente relata seus percalços no dia a dia.

Entre as principais características do chemobrain estão a dificuldade de concentração e organização, a lentidão no processamento das informações e a demora para executar tarefas rotineiras.

A incidência do transtorno varia de acordo com o tipo de câncer. Ele pode afetar até 90% dos pacientes com tumores cerebrais, entre 20% e 30% dos adultos com leucemia e até 75% das mulheres com câncer de mama.

Já o Alzheimer se manifesta de forma mais evidente e progressiva, comprometendo a memória e a capacidade de reter informações, o que afeta diretamente a autonomia do indivíduo.

Em estágios mais avançados, a doença pode provocar episódios de desorientação, nos quais a pessoa não reconhece o local onde está, mesmo que por breves momentos.

No chemobrain, é comum que a pessoa saia de casa para ir ao mercado e, no meio do caminho, esqueça o motivo de estar na rua, mas sem perder a noção de onde está.

No Alzheimer, por outro lado, o paciente passa a ter dificuldade para realizar atividades antes simples, como lidar com dinheiro, organizar a casa ou preparar uma refeição, frequentemente se confundindo durante esses processos.

Como agir

Sempre que surgirem sinais de declínio cognitivo, é fundamental comunicar o oncologista responsável pelo tratamento. A partir dessa avaliação, o paciente pode ser encaminhado para um neurologista ou geriatra, que irá investigar a origem do problema.

Atualmente, o diagnóstico é feito com base em testes cognitivos que envolvem leitura, escrita e interpretação de imagens, além de exames como a ressonância magnética.

Existem estratégias capazes de amenizar os efeitos do chemobrain, como a terapia cognitivo-comportamental, o treinamento cognitivo e a prática regular de atividade física.

No caso do Alzheimer, os médicos podem indicar exercícios de memória e terapias que ajudam a aliviar temporariamente os sintomas, embora ainda não seja possível interromper a progressão da doença.

As causas dos efeitos tardios da quimioterapia sobre o cérebro ainda não estão totalmente esclarecidas. Alguns estudos sugerem que o tratamento pode acelerar o envelhecimento cerebral, enquanto outros indicam alterações nas redes responsáveis por processar e integrar informações.

Independentemente da origem, o impacto do chemobrain é significativo na rotina do paciente, em especial na vida profissional.

Muitos deles acreditam que o comprometimento cognitivo está relacionado apenas ao afastamento temporário das atividades profissionais.

Nesse contexto, cabe ao médico realizar uma escuta ativa para identificar possíveis efeitos colaterais da quimioterapia e orientar o paciente de forma adequada.

Entender que a queda no rendimento profissional está associada ao tratamento ajuda a reduzir a culpa e a frustração, permitindo que a pessoa seja mais paciente consigo mesma durante o processo de recuperação.

Imagem: Shutterstock

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Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois.

Chemobrain

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Dr. Luiz Gustavo Torres

Médico oncologista da Oncologia D’Or e pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino; mestre em Ciências pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ESPN/Fiocruz)

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