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Um lar para todas as fases da vida

● Muitos planejam os imóveis só para as necessidades imediatas

Famílias se reorganizam ao longo dos anos, filhos retornam à casa dos pais e pais passam a morar com os filhos

Os ambientes testemunham as nossas conquistas, mudanças, encontros, reuniões em família ou entre amigos e o crescimento dos nossos filhos. Nossa casa deve ser um lar acolhedor, capaz de acompanhar nossas evoluções, necessidades e amadurecimento ao longo da vida.

Há um momento em que a relação com o lugar onde vivemos ganha novos significados. A escada que antes fazia parte da rotina passa a exigir mais atenção, seja com a instalação de faixas antiderrapantes, seja com a substituição dos guarda-corpos por modelos mais seguros.

O banheiro, por sua vez, revela limitações que antes passavam despercebidas.

Aspectos como espaço para giro de cadeira de rodas, revestimentos antiderrapantes, barras de apoio e a substituição do box por modelos mais acessíveis tornam-se fundamentais para garantir conforto e segurança.

Ambientes que atenderam bem durante décadas começam a pedir ajustes. Não por causa da idade em si, mas porque a trajetória de cada pessoa também se reflete na forma de habitar.

Como arquiteta, observo que muitos brasileiros planejam seus imóveis para atender às necessidades imediatas. Pensam na independência, na chegada dos filhos, no trabalho e nos espaços de convivência.

Poucos consideram que aquele mesmo lar precisará acolher novas etapas da vida, diferentes configurações familiares e outras formas de viver.

O aumento da expectativa de vida torna essa reflexão cada vez mais necessária. Vejo pessoas com mais de 60 anos morando sozinhas, com rotinas ativas, recebendo amigos e valorizando a liberdade de conduzir o próprio cotidiano.

Várias gerações sob o mesmo teto

Também acompanho famílias que se reorganizam ao longo dos anos: filhos que retornam à casa dos pais, pais que passam a morar com os filhos e residências que reúnem várias gerações sob o mesmo teto.

Quando falamos em adaptação residencial, a questão não se limita à segurança. Bem-estar, conforto e autonomia também fazem parte dessa equação, principalmente em um espaço que abriga histórias, memórias e vínculos construídos ao longo dos anos.

Ambientes bem iluminados, com circulação livre de obstáculos, pisos adequados e banheiros preparados para diferentes necessidades permitem uma adaptação mais tranquila, sem comprometer a personalidade e as características que tornam cada lar único.

Há detalhes que fazem toda a diferença.

A poltrona favorita próxima à janela, os livros ao alcance das mãos, os objetos que carregam lembranças e os espaços destinados ao convívio ajudam a preservar a identidade do ambiente.

O desafio está em conciliar essas características com soluções que tragam praticidade, conforto e redução de riscos.

Talvez a arquitetura tenha justamente esse papel: permitir que a casa continue acompanhando quem somos em cada fase da vida.

Que ela se adapte sem perder sua essência. Que acolha as transformações sem apagar as memórias. E que continue sendo o lugar onde nós reconhecemos, nos sentimos seguros e pertencentes.

À medida que os lares se transformam seja pela convivência entre gerações, seja pela escolha de morar sozinho ganham valor os ambientes capazes de oferecer conforto, autonomia e pertencimento sem abrir mão de sua identidade.

Afinal, mais do que um endereço, a casa é o cenário da nossa história. E ela deve estar preparada para acolher cada capítulo dessa trajetória.

Imagem: Divulgação

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Sabrina Fidelis

Arquiteta, urbanista e designer de interiores

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