Comportamento

Da máquina de escrever ao streaming

● Aprender é fundamental para nos mantermos vivos e lúcidos

Uma crônica sobre o estranhamento quando falamos de algo “da nossa época” para alguém que não tem ideia do que é

Dia desses, meu marido e eu estávamos em um stand de camisetas comprando um presente em um Shopping a céu aberto. Enquanto a vendedora fazia o pacote, falávamos sobre o finado programa Vídeo Show da TV Globo (finado na TV aberta porque atualmente é possível assisti-lo pelo streaming da Globo).

Não lembro como chegamos até o Vídeo Show na conversa, a questão é que eu percebi que a vendedora olhava de rabo de olho para nós com uma cara de: “De que planeta eles são?”. E aí eu perguntei: “Você lembra do Vídeo Show? Gente, era demais aquele quadro dos erros de gravação das novelas.”

A moça fez uma cara de desentendida e falou: “Não faço ideia!”. Meu marido e eu nos olhamos, rimos e falamos, “Mas é óbvio, ela deve ter uns 20 e poucos anos, como vai saber o que era Vídeo Show?”. E rapidamente contamos para ela do que se tratava e o interesse dela no assunto foi menos zero!

Quando falamos de algo “da nossa época” para alguém que não tem ideia do que se trata, temos um certo estranhamento. Nos sentimos “velhos”, desatualizados. No nosso caso, meu marido com 47 e eu com 43 anos, sim, em algumas situações já nos sentimos velhos e já somos chamados de tio e tia pelos amiguinhos da nossa filha de sete anos.

Eu sou “dona” e ele é “Sr.” no condomínio. E tudo bem, não temos, mesmo, qualquer problema com isso. Tudo tem seu tempo, sua época e realmente somos nostálgicos com algumas recordações “da nossa época”.

Conflitos de gerações

Porém, quer ver eu ficar doidinha de raiva? É quando enxergo empresas/marcas de todos os portes (pequenas, médias e grandes empresas) não observando a temporalidade de seus serviços e produtos para todas as idades. Principalmente quando falamos em tecnologia e comunicação.

É obrigação das marcas estarem atentas aos conflitos de gerações na tecnologia e na comunicação.

Lá no primeiro parágrafo eu escrevi que o Vídeo Show já está no streaming da Globo. Nem todo mundo sabe o que é streaming, que é a plataforma de conteúdo da Globo, ou seja, um serviço pago em que você escolhe ao que quiser assistir dentro do catálogo disponível, na hora que preferir, como se fosse uma locadora de vídeos dentro da TV.

Não saber o que é streaming não está atrelado, necessariamente, à data de nascimento no RG, não é questão de ser velho ou novo (e o que é ser velho ou novo?). Há outras questões envolvidas, como falta de acesso à internet (questão social).

Contudo, para as pessoas da chamada terceira idade, em geral, e não como regra, é mais comum haver maior dificuldade de entendimento e uso das novas tecnologias e dos novos formatos de comunicação.

Penso que, principalmente para as grandes marcas que têm mais recursos financeiros, seria mandatório contratar consultores de todas as faixas etárias antes de lançar um produto ou serviço.

Será que aquele serviço de streaming (não só o da Globo, mas tem Netflix, Amazon Prime, Disney Plus etc.) conversa com os públicos de mais idade? A resposta é: não!

É mister pensar a tecnologia e a comunicação também para outras faixas etárias que não somente os jovens, afinal de contas, essas pessoas estão aí, vivendo e consumindo.

A expertise dos mais velhos

Recentemente uma grande rede de fast food substituiu a maioria de seus atendentes humanos por painéis eletrônicos de autoatendimento. Já sabemos que esse parece ser o caminho e o futuro, mas para tudo e para todos?

Essa rede de fast food, aquela do “M” grandão, sabe, né?… é consumida por diferentes classes sociais e pessoas de faixas etárias distintas. Inclusive, muito se vê nos shoppings centers no período de férias os avós levando os netos para passear. Se forem netos grandes, eles mesmos farão os pedidos no autoatendimento, mas e se forem piticos que não sabem sequer ler?

Será que aquele painel é de fácil compreensão para todas as idades? Não, não é!

Ah, mas também não dá para adaptar tudo para todo mundo! É o que diriam muitas pessoas. Porém, em muitas situações não se vê sequer o mínimo de esforço para facilitar a vida de quem não tem tanta familiaridade com novas tecnologias.

Por isso, sim, penso que as áreas de desenvolvimento de produtos e serviços nas empresas precisam contar com a expertise dos mais “velhos”.

Eu não sei por qual motivo eu tenho grande empatia pelos mais velhos em relação a essa questão das tecnologias e comunicação. Talvez porque meu pai (já falecido), tivesse uma grande dificuldade com as modernidades.

E se fosse meu pai aqui?

Uma vez ele não conseguiu pagar uma conta na casa lotérica porque estava sem sistema e me procurou desesperado porque estava no dia do vencimento. Morávamos perto e pedi para ele ir até minha casa que eu pagaria pela internet. Ele foi, porém, totalmente desconfiado.

Coloquei ele na frente do notebook comigo, acessei o aplicativo do banco pelo computador e fiz todos os passos do pagamento da conta calmamente e mostrando para ele porque eu sabia que ele precisava ver e entender para sentir segurança de que o pagamento estava sendo feito corretamente.

Quando acabei e imprimi o comprovante, ele disse: “Eu não confio nisso, como vou saber se pagou mesmo? De onde saiu o dinheiro?”.

Eu falei para ele esperar uns dois dias para a compensação e ligar na empresa para confirmar o pagamento. Ele fez isso mesmo e só depois disso se sentiu seguro.

É natural, meu pai nasceu em 1953, não tinha muita instrução, veio do sertão do Nordeste, como cobrar dele o entendimento de uma evolução tecnológica tão rápida?

Então, cada vez que eu passo por algum processo novo de tecnologia eu sempre penso: “Gente, e se fosse meu pai aqui?”.

Do outro lado da moeda

E sobre o “não dá para adaptar tudo para todo mundo” ou “nem todo mundo é como meu pai”, também é muito importante que as pessoas que nasceram em outras gerações estejam dispostas a viver os tempos dentro da nova realidade.

Bater pé que tudo tem que ser às antigas não faz sentido, o mundo muda, evolui, e que bom. Imagina pararmos na carroça?

O esforço tem que vir dos dois lados, do usuário em perguntar, pesquisar, se esforçar e das marcas em serem facilitadoras ao consumo dos seus próprios produtos e serviços.

Recentemente uma pessoa me disse “tô de saco cheio dessa tecnologia”. Ela me disse isso pelo WhatsApp, no mínimo, incongruente.

WhatsApp para falar com os netos, marcar os almoços de família ou simplesmente dar bom dia no grupo da família; Facebook para ter notícias dos filhos e netos dos amigos; Instagram para pesquisar fotos do tema do próximo aniversário do sobrinho; Waze para chegar na nova casa de um familiar lá em outra cidade; apps de medição dos batimentos cardíacos; telemedicina.

A tecnologia está aí e ela pode ser excelente e pode ser péssima, tudo vai depender do comportamento do usuário e de as marcas se atentarem a todos os públicos.

Ah, e eu, com 43 anos, tendo diploma de datilografia, não posso nem ouvir falar em uma nova rede social que já me dá “siricutico”. Mas, se chegarem novas, vou aprender, afinal de contas, aprender é fundamental para nos mantermos vivos e lúcidos.

E você, do que sente saudades da “sua época”? Ou, qual sua maior dificuldade com tecnologia e comunicação? Vamos conversar remotamente?

Imagem: Fiona Murray / Unsplash

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Então. Pois. Então. Pois.  Pois. Streaming. Então. Pois. Então. Pois. Então. Streaming.
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Cristiane Sampaio

Jornalista, escritora, produtora cultural e sócia-fundadora da ACTA Comunicação Integrada; tem mais de 20 anos de experiência em comunicação corporativa

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Um Comentário

  1. A tecnologia é uma das maiores revoluções da contemporaneidade, traz informações e conecta pessoas em um clique, mas, como tudo,, depende da forma que usamos para dizer sobre as variadas experiências. Um app que eu gostava “quando tudo era mato” neste Universo digital era o saudoso Orkut com suas icônicas comunidades. Hoje temos novas versões para esse tipo de interação! Facebook já está ultrapassado para novas gerações que se concentram no Instagram. Curioso como cada app e jeito de usar as redes tem sua marca geracional.

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