Afinal, o que é memória afetiva?

► Alguma vez você conheceu alguém e sentiu simpatia ou antipatia por ela imediatamente, sem saber o motivo? Já sentiu um cheiro e, sem perceber, lembrou-se de um momento específico do passado? Afinal
Ou então, ao ouvir uma música, de repente, sentiu um turbilhão de emoções? Aqui estão alguns dos inúmeros exemplos de lembranças que acontecem no nosso dia a dia quando a nossa memória é ativada por algum estímulo exterior.
O mais impressionante é que esse processo acontece o tempo todo de forma inconsciente, sem nos darmos conta disso.
A nossa memória como um todo tem a maravilhosa capacidade de registrar, de armazenar e de recuperar as informações que coletamos no nosso dia a dia.
É um mecanismo biológico, mas também é um processo que molda a nossa identidade, nossa criatividade e até as nossas escolhas!
Ao tentar armazenar a quantidade enorme de informações que nós recebemos todo dia, o nosso cérebro sempre prioriza aquelas que se tornarão memórias ligadas a emoções intensas/marcantes, sejam elas agradáveis ou desagradáveis.
É o que chamamos de memória afetiva! A memória afetiva é a capacidade que temos de associar experiências vividas a sensações emocionais, criando registros que influenciam nossa maneira de sentir, pensar e agir.
Medo, alegria etc.
Reflita comigo! Se, em algum momento da sua vida você passou por alguma experiência que lhe causou medo, seu cérebro grava bem essa memória para evitar que você passe por essa experiência novamente.
E, se você teve uma experiência que lhe trouxe muita alegria, o seu cérebro registra essa memória para que ela seja buscada novamente.
Experiências intensas, sejam agradáveis ou desagradáveis, ficam mais marcadas na memória porque elas têm uma grande importância para a manutenção da nossa sobrevivência, permitindo que possamos ter respostas automáticas aos riscos e oportunidades que surgem no nosso dia a dia.
É na infância e na adolescência que consolidamos mais as nossas memórias afetivas e elas influenciam a formação da nossa identidade.
E é a partir dessas memórias que buscamos, na vida adulta, evitar o que nos causou dor ou sofrimento e buscar aquilo que nos traz segurança e bem-estar.
A memória afetiva influencia diretamente nossos comportamentos, escolhas e relacionamentos.
Há uma tendência a buscar situações ou indivíduos que nos remetam a experiências emocionais positivas do passado e a evitar aquelas associadas a experiências negativas.
Ela também molda hábitos e gostos pessoais, como preferências por atividades que foram emocionalmente significativas na infância.
Muitas vezes, reagimos automaticamente, sem perceber que estamos sendo guiados por experiências e emoções antigas.
Por exemplo, algumas pessoas podem evitar compromissos porque associam relacionamentos à dor, baseando-se em antigas decepções.
Outras buscam constantemente aprovação, fruto de uma infância em que sentiram pouco reconhecimento.
Escolhas cotidianas
Lembranças compartilhadas como festas, rituais e histórias familiares promovem a coesão social, fortalecendo vínculos e a cooperação entre as pessoas, fatores essenciais para a proteção e o apoio mútuo.
É o que vemos e vivemos agora em época de Copa do Mundo, ao resgatarmos as agradáveis memórias de copas anteriores.
A memória afetiva também influencia as nossas escolhas cotidianas o tempo todo seja na escolha de alimentos, evitando pratos que nos causaram algum mal, seja na nossa expectativa sobre a intimidade e confiança, derivadas de memórias afetivas da infância, que nos guiam na escolha de um parceiro ou de um amigo.
Na carreira e nos projetos de vida, nossas memórias de reconhecimento ou de fracasso podem direcionar nossas ambições, nossa persistência e também o medo de arriscar.
Sentir um cheiro gostoso de comida da infância certamente acalma uma pessoa antes de fazer uma apresentação; ouvir uma música traz a confiança antes de um encontro.
E uma crítica repetida na infância leva a pessoa já adulta a evitar posições de liderança.
Certamente, você já deve ter percebido que algumas pessoas parecem ser confiantes e seguras, enquanto outras sempre duvidam de si mesmas.
A memória afetiva de experiências com elogios e incentivos colabora para que a pessoa se sinta mais confiante, ao passo que aquela que foi criticada ou desencorajada, pode desenvolver um medo enorme de errar, de falhar!
Ressignificar memórias ruins
A memória afetiva desagradável pode nos limitar pela vida afora diante de alguns problemas como medos inexplicáveis, autossabotagem ou relacionamentos tóxicos.
Não podemos mudar o passado, mas podemos alterar a forma como ele nos afeta no presente, podemos tentar ver o lado bom das experiências difíceis, reinterpretando as situações que já vivemos, criando novas experiências boas diante daquilo que nos traz más lembranças, por exemplo.
Em muitos casos, um acompanhamento psicológico é eficaz para ressignificar essas memórias ruins, permitindo que a pessoa possa criar novas memórias afetivas positivas.
Por outro lado, a memória afetiva agradável deve ser sempre ativada: quanto mais reforçarmos nossas memórias boas, mais elas se tornarão dominantes e sabe por quê?
Nosso cérebro é treinável e nada melhor do que treiná-lo a relembrar bons momentos, revivendo-os através de fotos e vídeos antigos, passando mais tempo com as pessoas que nos fazem bem, associando uma música favorita a uma experiência emocional agradável, usando perfumes que trazem boas lembranças…
A memória afetiva pode prender uma pessoa ao passado ou ser um trampolim para um futuro melhor, tudo vai depender da forma de lidar com ela.
E eu pergunto: se você tem o poder de escolher quais são as lembranças que você quer manter, quais seriam as memórias afetivas que você escolheria: as agradáveis ou desagradáveis?
Cultivar as boas memórias é o caminho para ter uma vida plena e feliz.
Imagem: (original) Gemini
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